Notícias da Rede

Wikipédia já integra conteúdos na língua emakhuwa

Jovens escritores em Moçambique exploram a internet para difundir conhecimento através das línguas nativas. A integração de conteúdos em emakhua na plataforma Wikipédia é o primeiro passo.

Para os especialistas, a iniciativa de explorar o potencial da enciclopédia colaborativa digital de conhecimento livre Wikipédia para integrar conteúdos em emakhua, que já conta com mais de 100 artigos, é promissora. Mas pode enfrentar desafios de literacia e padronização da escrita.

O emakhua, a língua materna mais falada em Moçambique  – com cerca de seis milhões de cultores – já é um instrumento de produção e difusão de informação e conhecimento na plataforma Wikipédia.

A iniciativa, a primeira envolvendo as línguas locais de África lusófona, começou com a capacitação de mais de 70 redatores de conteúdos voluntários que dominam o emakhua, resultando na produção de perto de 100 artigos nesta língua.

O mentor do projeto em Moçambique, Jessemusse Cacinda, co-fundador e diretor da editora Ethale Publishing, explica, em emakhua, que este é um ponto de partida para a transformação das línguas moçambicanas em mecanismo de aproximação de culturas e identidades em África e no mundo.

O linguista Francisco Pedro, da Universidade Rovuma, destaca o carácter inovador da iniciativa e recorda que a promoção da literacia é fundamental para a garantia do acesso ao conhecimento disponível.

Fonte: https://noticias.mmo.co.mz/2021/09/wikipedia-ja-integra-conteudos-na-lingua-emakhuwa.html#ixzz77BxRhAL3

Peru: políticas linguísticas depois da comoção

Crianças quéchua, Peru (Imagem de Paulo Philippidis)

Depois da comoção causada pela iniciativa do primeiro-ministro peruano de começar seu discurso em quéchua durante o pedido do voto de confiança perante o Congresso da República, além da reação desastrada e racista de alguns membros da oposição, convém pararmos para pensar como se pode aproveitar o momento desafiador que nós, peruanos e peruanas, estamos vivendo para aplicar ações mais duradouras e efetivas em favor dos direitos linguísticos e do respeito à diversidade linguístico-cultural no país.

Talvez um primeiro ponto que deveria ter ficado claro após o incidente é que, num país que se diz multilíngue e pluricultural, é fundamental que instituições públicas como o Congresso estejam mais bem preparadas para implementar um sistema de tradução e interpretação quando o momento assim o requeira. Ações como estas não só nos aproximam a respeitar o direito que os falantes das línguas originárias têm de utilizar seus idiomas durante as atividades que exercem no espaço público, como também contribuem para construir aquela interculturalidade tão repetida no discurso e tão negligenciada nos arranjos institucionais concretos.

Considerando-se que há membros do gabinete que sabem usar a língua quéchua – e a utilizam, com todo direito, com diversos fins estratégicos –, tanto entidades públicas quanto instituições privadas, a exemplo dos meios de comunicação de massa, deveriam avaliar a necessidade de contratar tradutores-intérpretes; isso lhes permitiria garantir o cumprimento adequado do seu trabalho e ainda resguardaria a imagem pública dessas entidades e instituições diante de uma eventual impressão que indicasse ineficácia e rechaço à cultura. Quanto a esse episódio, a TV Perú foi uma exceção; ela conseguiu garantir a tradução adequada do fragmento mencionado para que o intérprete da língua de sinais peruana não interrompesse seu trabalho. Isso foi possível porque o canal de TV oficial conta com apresentadores que conseguem traduzir entre o quéchua e o espanhol.

Há vários anos, o Peru conta com um importante conjunto de tradutores-intérpretes entre as línguas originárias e o espanhol, os quais foram capacitados e certificados pelo Ministério da Cultura. O investimento realizado pelo Estado e o empenho dessas pessoas em sua formação constituem um ativo que deveria ser aproveitado de maneira mais ampla e consistente. Esse grupo de mediadores linguísticos não só é capaz de interpretar e traduzir entre o espanhol e os quéchuas de Cusco e de Ayacucho (que são as variedades do quéchua mais difundidas e ouvidas publicamente nas últimas semanas), mas também nas outras modalidades, para mencionar apenas a família linguística quéchua. Mesmo com um projeto recentemente apresentado ao Congresso por Flor Pablo sobre o tema (e anteriormente impulsionado por Alberto de Belaunde) e com um pedido formal da congressista Isabel Cortez, fica evidente que o Parlamento nacional está desperdiçando essa reserva de profissionais há vários anos, como bem salientou a Defensoria do Povo.

Com relação a essa iniciativa de formação, que vem sendo desenvolvida há quase dez anos, o segundo ponto que merece ênfase diz respeito, de modo mais geral, ao conjunto de avanços realizados pela Direção de Línguas Indígenas do Ministério da Cultura do Peru em prol do respeito aos direitos linguísticos dos falantes de línguas originárias e da diversidade cultural no nosso país. Desenvolver esses cursos de formação em tradução e interpretação e dispor do registro oficial de tradutores-intérpretes não foi pouca coisa. Também não foi tarefa fácil iniciar um programa de certificação de servidores públicos estatais com funcionários e funcionárias capazes de oferecer um atendimento de qualidade nas línguas originárias predominantes em suas respectivas zonas. Mais complicado ainda foi ter acordado e afinado uma política linguística nacional que contemplasse distintas ações de revitalização, fomento e transmissão intergeracional das línguas originárias a curto, médio e longo prazo.

“Se as políticas linguísticas não forem conduzidas com seriedade e com um olhar amplo e centrado na construção de uma cidadania intercultural para todos os peruanos e peruanas, a aparição esporádica dos idiomas indígenas nos espaços públicos somente acompanhará – e talvez ajude a reforçar – discursos excludentes e ultrapassados”.

Saber quais desses avanços serão mantidos e aprofundados na gestão do atual Governo ainda constitui um enigma num país em que as políticas se encontram afetadas pelo mal da reformulação total que costuma influenciar as autoridades públicas. Cabe fazer a mesma pergunta sobre a experiência adquirida pelos funcionários do Ministério da Educação, tanto em torno da educação intercultural bilíngue quanto da formação de docentes capacitados de maneira adequada para realizar esta tarefa difícil e crucial.

Como terceiro ponto, um aspecto que, a meu ver, ainda não foi suficientemente planejado em nosso país é a institucionalização, por parte do Estado, da formação em línguas originárias como segundas (ou terceiras) línguas com um enfoque no perfil de quem está aprendendo. O crescimento, nos últimos anos, da relevância de aprender esses idiomas – sobretudo entre filhos e netos de famílias que, por razões já conhecidas de discriminação histórica, deixaram de transmitir essas línguas às novas gerações – deveria trazer mais ênfase e mais investimento de recursos nessa modalidade de formação, assim como na capacitação docente em metodologias apropriadas para o ensino de segundas línguas.

O que acontece atualmente é que aquele que deseja aprender uma língua originária, a exemplo de uma das variedades do quéchua, pode embarcar em uma experiência de estudos particulares, mas não contará com a certeza de poder se aprofundar nos níveis médios ou avançados de aprendizagem, pois a maior parte dos cursos oferecidos em nosso país alcança somente o nível básico. As iniciativas já existentes são muito valiosas – algumas delas gratuitas, como as oferecidas pela Prefeitura de Lima e por grupos de ativistas como o Coletivo Quéchua Central. Porém, falta uma coordenação estatal que centralize, potencialize e delineie melhor essas experiências em benefício dos futuros estudantes. Se bem implementados, os esforços nesse sentido servirão para contrapor a ideia equivocada de que as línguas indígenas são códigos restritos à vida rural e que só aparecem nas manifestações culturais consideradas tradicionais.

Se existe vontade política de construir um país multilíngue e pluricultural, é necessário, em meio a conjunturas desafiadoras, ir além do uso tático das línguas originárias. Se as políticas linguísticas não forem conduzidas com seriedade e com um olhar amplo e centrado na construção de uma cidadania intercultural para todos os peruanos e peruanas, a aparição esporádica dos idiomas indígenas nos espaços públicos somente acompanhará – e talvez ajude a reforçar – discursos excludentes e ultrapassados que postulam a existência de “tipos de peruanos” contrapostos de maneira essencialista. Nada mais distante do horizonte plural e democrático que a complexidade do nosso país requer.

Por Luis Andrade Ciudad/Idehpucp

Doutor em Linguística com especialização em Estudos Andinos pela Pontifícia Universidade Católica do Peru

O texto original pode ser lido aqui


Traduzido do espanhol por Nathália Cardoso / Revisado por Graça Pinheiro

ON lamenta falecimento do professor Germano Bruno Afonso, referência em Astronomia Indígena Brasileira

“Todos os mistérios estão no céu”. Era o que afirmava o professor Germano Bruno Afonso, nacionalmente conhecido como um dos maiores difusores da Astronomia Indígena Brasileira. Germano faleceu na tarde de quinta-feira (26), aos 71 anos, em decorrência da Covid-19.

Natural de Ponta Porã, uma cidade pequena do Mato Grosso do Sul, Germano tem raízes indígenas, de origem Guarani, e aprendeu com os pais a observar as estrelas como os índios. Seu interesse pela ciência, em particular pela astronomia, surgiu da observação das constelações indígenas e seus mitos.

Germano graduou-se em Física pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1973 e, pela mesma instituição, concluiu o mestrado em Ciências Geodésicas em 1977. Ele foi o primeiro coordenador do Programa de Pós-graduação em Física e trabalhou por quase três décadas na UFPR, entre 1974 e 2003.

Em 1980, foi para a França, onde formou-se doutor em Astronomia de Posição e Mecânica Celeste pela Université Pierre et Marie Curie. Já em 1993, o professor concluiu o pós-doutorado no Observatoire de la Cote d’Azur.

Suas principais áreas de estudo eram: Astronomia Indígena Brasileira, Arqueoastronomia, Popularização da Astronomia, Etnoastronomia, Efeitos das Marés no Sistema Terra-Lua e Modelagem de Forças Não-Gravitacionais em Órbitas de Satélites Artificiais e de Fragmentos de Asteróides Rasantes à Terra.

Germano é autor do artigo “Mitos e Estações no Céu Tupi-Guarani” publicado na edição especial da Scientific American Brasil, em 2006. Além disso, foi fundamental para a construção de Observatórios Solares Indígenas em aldeias e desempenhou um papel de destaque na estruturação do Parque das Ciências Newton-Freire Maia no Estado do Paraná, e do Museu da Amazônia.

Em 1991, Germano foi agraciado com o Prêmio Paranaense de Ciência e Tecnologia, que  visa reconhecer e estimular a produção científica, tecnológica e de extensão paranaense. Em 2000, recebeu o Prêmio Jabuti com o livro “O Céu dos Índios Tembé” na categoria Melhor Livro Didático.

De diferentes maneiras, Germano ajudou as aldeias, sendo elas indígenas ou urbanas, a resgatarem o conhecimento astronômico de culturas contemporâneas. Da mesma forma, com seu vasto trabalho e dedicação, ajudou a conscientizar a todos nós sobre a cultura e a ciência indígena.

“Para o indígena do Brasil, a Terra nada mais é do que o reflexo do céu. Então, toda a explicação está lá em cima: a origem do Universo, a criação do ser humano e a relação com o meio ambiente… É muito bonito e eu fui aprendendo isso já desde pequeno, nessa visão não ocidental”, disse Germano em uma entrevista em 2011.

Em uma de suas composições, o músico Hélio Ziskind homenageia o Prof.Germano, contando um pouco de sua pesquisa e entoa:

“Professor Afonso que história mais bonita que o senhor descobriu”

O Observatório Nacional lamenta profundamente o falecimento de Germano e envia suas condolências aos colegas, amigos e familiares do professor.

Via Observatório Nacional 

‘Brasileiro não percebe a questão indígena como um problema seu’, diz analista ante marco temporal

Desde o dia 22, milhares de indígenas estão acampados em Brasília protestando contra o marco temporal. A Sputnik Brasil entrevistou analista para saber o que pode acontecer com a comunidade indígena brasileira se essa medida for aprovada.

Na quinta-feira (26), o Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar se demarcações de terras indígenas devem seguir o chamado “marco temporal”. Por esse critério, indígenas só podem reivindicar a demarcação de terras que já eram ocupadas por eles antes da data de promulgação da Constituição de 1988, segundo o G1.

A decisão pode definir o rumo de mais de 300 processos de demarcação de terras indígenas que estão em aberto no país. Nesta semana, índios de todo o Brasil acamparam na Esplanada dos Ministérios em protesto contra o marco.

“Na realidade é um retrocesso. […] Infelizmente o movimento indígena tem pouquíssimos representantes no Congresso, e isso mostra uma fragilidade e desvantagens para os povos indígenas. Por outro lado, a sociedade brasileira também se mostra apática em relação a esta pauta danosa aos ambientes e aos povos indígenas”, destacou Nelcioney José de Souza Araújo, professor de geografia da Universidade Federal do Amazonas citado pelo Correio Brasiliense.

A Sputnik Brasil entrevistou Ricardo Cid Fernandes, professor de antropologia do Departamento de Antropologia e programa de pós-graduação de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Paraná para entender mais sobre o assunto.

Indígena protesta contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e contra o marco temporal em Brasília, Brasil em 27 de agosto de 2021
© REUTERS / AMANDA PEROBELLI
Indígena protesta contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e contra o marco temporal em Brasília, Brasil em 27 de agosto de 2021

Fernandes diz que a sociedade brasileira se mostra apática a questões indígenas porque há pouco conhecimento e interesse sobre a questão, além disso, o brasileiro concebe, até hoje, uma visão do indígena associada ao passado e a lugares remotos e distantes.

“O brasileiro não percebe a questão indígena como um problema seu”, disse o professor.

O mesmo ainda ressalta que o assunto está mais em alta neste momento porque vem sendo associado ao discurso ambientalista, que também está em evidência no mundo todo.

Demarcação de terras indígenas

Fernandes elucida que a demarcação de terras para povos indígenas é de extrema importância uma vez que se trata “de um direito fundamental, é como um direito à vida”.

“O direito ao território é a compreensão da terra como local da história dos antepassados, local da vida possível do presente, local onde os simbolismos estão associados, local dos poderes da natureza. A garantia do direito territorial é fundamental, a vida só é possível considerando o direito ao território.”

O professor também salienta que as terras indígenas são as terras ambientalmente mais protegidas do Brasil, “a floresta está em pé onde os índios estão”.

“No Sul do país, onde houve retomada de terras nos últimos 30, 40 anos, as terras recuperaram sua qualidade ambiental e contrastam fortemente com o território de exploração da agricultura que são desmatados. Os indígenas prestam serviço ambiental de extrema importância que é o de manter a floresta em pé.”

Indígenas participam de protesto em Brasília contra o marco temporal em Brasília, 26 de agosto de 2021
© REUTERS / AMANDA PEROBELLI
Indígenas participam de protesto em Brasília contra o marco temporal em Brasília, 26 de agosto de 2021

Marco temporal

Conforme citado anteriormente, na semana passada, o Supremo começou a julgar se demarcações de terras indígenas devem seguir o chamado “marco temporal”, critério pelo qual índios só podem reivindicar a demarcação de terras que já eram ocupadas por eles antes da data de promulgação da Constituição de 1988.

Segundo Fernandes, o cerne da discussão acontece porque há dois tipos de interpretações diante da demarcação de terras. De “um lado os índios afirmam e a história comprova” que a presença indígena nas terras tradicionalmente ocupadas foi impossibilitada por vários processos oriundos da colonização.

“Ocupar tradicionalmente uma terra para os indígenas não significa estar permanentemente nela, significa reconhecer esse território, lutar por ele e demonstrar os processos de violação que acontecem em seus direitos territoriais.”

Indígenas da etnia Xokleng participam de protesto em Brasília, 25 de agosto de 2021
© REUTERS / AMANDA PEROBELLI
Indígenas da etnia Xokleng participam de protesto em Brasília, 25 de agosto de 2021

Já a outra interpretação, entende que para uma terra ser considerada tradicionalmente ocupada é preciso estar constantemente presente na mesma.

“Em resumo, a discussão sobre o marco temporal coloca em lados opostos os termos da Constituição, que definem que os indígenas têm direito às terras tradicionalmente ocupadas, e de outro lado, os instrumentos de aplicação dessa lei que são o decreto nº 1775 e a portaria nº 14, ambos de 1996, que são legislações que organizam e normatizam o processo de demarcação de terras. Por um lado, a Constituição garante terras tradicionalmente ocupadas, por outro, os estudos são baseados na caracterização da ocupação permanente das terras”, explicou o professor.

Diante desse cenário, Fernandes afirma que há “um desencontro entre Constituição e legislação infraconstitucional” e que esse desencontro é contornado através de estudos que “acabam demonstrando que a ocupação permanente pelos indígenas foi muitas vezes inviabilizada”.

Povos indígenas carregam um caixão improvisado durante protesto contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e pela demarcação de terras em frente ao Palácio do Planalto em Brasília, 27 de agosto de 2021
© REUTERS / AMANDA PEROBELLI
Povos indígenas carregam um caixão improvisado durante protesto contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e pela demarcação de terras em frente ao Palácio do Planalto em Brasília, 27 de agosto de 2021

“Terra tradicionalmente ocupada não significa terra permanentemente ocupada, e essa é a origem do problema”, complementou.

O professor clarifica que quem defende o marco temporal considera que não deve mais acontecer demarcações de terras indígenas no Brasil, ou seja, apenas as terras ocupadas pelos indígenas até 1988 teriam seu reconhecimento como pertencentes aos mesmos.

“Quem defende o marco temporal hoje exclui de todo um processo de demarcação a maioria dos indígenas do Brasil. […] Se pensarmos nos últimos 100 anos, a ocupação de terras no Sul, Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste foi muito intensa, e o relato cotidiano de muitos indígenas envolve a reivindicação de terras que foram expropriadas. […] Há muitos casos documentados de grupos que foram violentados e exterminados por todo Brasil, e esses processos não ocorreram apenas após a Constituição, ocorreram ao longo de toda história da colonização.”

Adicionalmente, Fernandes diz que uma das formas de reparar a violência contra os indígenas é reconhecer seus direitos territoriais, reconhecimento esse que o marco temporal não legitima.

O especialista também explica que o caso foi parar no STF porque é um problema do Estado, a partir do momento que “as procuradorias estaduais entram com uma ação contra a União. É o Estado contra a Fundação Nacional do Índio [Funai], o Estado contra o Ministério da Justiça que demarcou a terra, e por isso está no STF”.

“Não podemos esquecer que a o território é tradicionalmente ocupado por indígenas, mas a terra é um bem da União, quem dispõe da terra em última estância é a União, os indígenas têm usufruto das terras, eles não são proprietários. Toda terra indígena está escrita no Departamento de Patrimônio da União”, esclareceu o professor.

Criança indígena é fotografada durante protesto no primeiro dia do julgamento do STF contra caso histórico sobre os direitos à terra dos indígenas em Brasília, 25 de agosto de 2021
© REUTERS / ADRIANO MACHADO
Criança indígena é fotografada durante protesto no primeiro dia do julgamento do STF contra caso histórico sobre os direitos à terra dos indígenas em Brasília, 25 de agosto de 2021

Posição do governo federal

O professor afirma que o governo Bolsonaro é totalmente favorável ao marco temporal porque “considera que já há muitas terras demarcadas, e que o importante é o Brasil ter segurança jurídica, como eles dizem, terras que não serão reivindicadas por indígenas para que possa se desenvolver o agronegócio e a exploração de minas”.

“A posição é favorável ao marco temporal e ignora a luta e os massacres sofridos ao longo do século XX pelos indígenas. […] É um governo que não se posiciona perante a chave da reparação histórica, mas sim perante uma chave desenvolvimentista.”

Fernandes acredita que a chance da lei ser aprovada é grande, mas também enfatiza que a chance dos indígenas seguirem lutando é maior ainda.

“Se de certa forma eles sofreram calados e pressionados no século XX, no século XXI eles já demonstraram que encontraram parceiros e aliados, sabem operar com as mídias, sabem operar dentro do sistema legal e pressionar politicamente. Esse será um século mais indígena do que o XX, com certeza.”

Esse fato pode ser evidenciado após cerca de mil lideranças indígenas decidirem no sábado (28) continuarem acampadas em Brasília até o dia 2 de setembro, para esperar o julgamento do marco temporal pelo STF, segundo o G1.

O acampamento, chamado de “Luta pela Vida”, está montado desde domingo (22) e mostra que o índio de hoje não fica mais calado, e manifesta sua luta através da resistência.

Indígenas no acampamento Luta pela Vida durante manifestação em defesa dos povos indígenas locais, em Brasília, 23 de agosto de 2021
© REUTERS / ADRIANO MACHADO
Indígenas no acampamento Luta pela Vida durante manifestação em defesa dos povos indígenas locais, em Brasília, 23 de agosto de 2021

Violência contra indígenas

Fernandes explica que a violência é um problema da colonização, pois esse processo ocorre na base da truculência e agressividade, e quando se trata de violência contra indígenas, mostra que “a colonização não é um fenômeno do passado, ela é um modo de ser que se reproduz constantemente”.

“A violência em terras indígenas precisa ser o assunto, ela não pode ser tratada como excepcionalidade ou como uma circunstância especifica, não, ela é um assunto do cotidiano das relações entre índios e não índios, entre os próprios indígenas, entre instituições e as relações exploratórias dos madeireiros”, elucidou.

O professor também enfatiza que a violência envolvendo índios “informa mais sobre a nossa sociedade do que sobre a sociedade indígena, informa mais sobre o lugar que nós reservamos a essa população na nossa sociedade” e que a dinâmica acontece de forma coletiva, por parte dos indígenas, mas de forma individual por parte de um agente de violência.

Indígena torce um pano durante um protesto em Brasília, 25 de agosto de 2021
© REUTERS / ADRIANO MACHADO
Indígena torce um pano durante um protesto em Brasília, 25 de agosto de 2021

“O indígena sempre aparece como um direito coletivo, uma comunidade, do outro lado é sempre um agente de violência, um mandante, um fazendeiro com um projeto individual.”

Fernandes também chama atenção para as prisões de índios, uma vez que os dados sobre esses encarceramentos são de difícil acesso. Como exemplo, o professor cita que os dados do Departamento Penitenciário do estado do Paraná informam que não há indígenas presos, quando se sabe que existe, pois ao entrarem no sistema prisional eles perdem a sua condição indígena e viram “presos comuns”.

“Há presos no estado do Paraná que nem falam português, mas não são considerados índios. O problema da violência é um problema brasileiro que os indígenas acabaram fazendo parte, infelizmente.”

O que fazer para indígenas viverem em paz?

O especialista aponta que o direito à terra é fundamental, e estando com esse direito garantido, a “tranquilidade se instala”.

Fernandes também evidencia que esse direito à terra não pode ser “ter só um espaço” e vive-se ali de qualquer jeito. Essa terra tem que ser um território com tamanho apropriado para que o mesmo conceba e autorize um projeto indígena.

O professor afirma que ao olharmos para o mapa indígena do Brasil, 98% das terras estão concentradas na Amazônia, o restante, que somam apenas 2%, estão divididas pelo país, ou seja, esses 2% mostram como são pequenos esses territórios.

Indígenas acendem velas e participam de protesto pela demarcação de terras e contra o governo do presidente, Jair Bolsonaro, junto ao Congresso Nacional em Brasília, 24 de agosto de 2021
© REUTERS / ADRIANO MACHADO
Indígenas acendem velas e participam de protesto pela demarcação de terras e contra o governo do presidente, Jair Bolsonaro, junto ao Congresso Nacional em Brasília, 24 de agosto de 2021

“Há terras com 200 hectares onde vivem mil pessoas, há terras como Dourados [MS] onde vivem 14 mil indígenas, terras superlotadas, além de terras que foram extintas e os índios vivem na margem de estradas em acampamentos em condições absolutamente marginais. Não há paz de espírito nessa condição.”

Fernandes complementa que o verdadeiro direito à terra, é direito a uma terra que tenha uma qualidade ambiental, que tenha referências com o sagrado, com os antepassados.

“Não adianta uma terra pequena com índios amontoados sem condição de produzir, sem condição de se reproduzir socioculturalmente, essa terra vai ser uma terra fonte de conflito. O equilíbrio demográfico, sustentável e fundiário é fundamental para que a paz de espírito se recoloque na questão indígena.”

Por Via Sputnik Brasil  

Nada justifica o olho gordo em nossas terras

“Minha língua materna é a ze’egete, que significa “a fala boa”. Sou formada em letras, também conheço muito bem o português. “Narrativa”, palavra favorita dos seguidores do presidente Jair Bolsonaro, é definida no dicionário como “texto em prosa cujos personagens figuram situações fictícias, imaginárias”. E ela define a fala má dita na semana passada por Bolsonaro sobre o julgamento da tese do marco temporal no Supremo Tribunal Federal: “Se mudar o entendimento passado, de imediato nós vamos ter que demarcar, por força judicial, uma outra área equivalente à região Sudeste como terra indígena. Acabou o agronegócio”. Como é possível caber tanta ficção em apenas duas frases?”

Confira o Artigo de opinião completo de  Sonia Guajajara na Folha 

Prêmio de Literaturas Indígenas da América prorroga inscrições

Organizado pela Universidade de Guadalajara, prêmio tem o objetivo estimular a criação literária de escritoras e escritores em línguas indígenas. Qualquer escritor(a) indígena do continente americano tem até 31/08 para se inscrever.

A comissão do Prêmio de Literaturas Indígenas da América (PLIA) prorrogou o prazo de inscrições da edição deste ano até o dia 31 de agosto. Organizado pela Universidade de Guadalajara em parceria com os Ministérios da Cultura e Educação de Jalisco, com o Instituto Nacional de Línguas Indígenas (INALI) e o Instituto Nacional dos Povos Indígenas (INPI), o prêmio tem como objetivo estimular a criação literária de escritoras e escritores em línguas indígenas. Nesta edição, serão premiados trabalhos no gênero crônica, com tema livre, podendo ser gravado ou escrito, no idioma do autor. Assim, todos os escritores dos povos indígenas do continente americano podem participar, independentemente do seu local de residência atual. Seus trabalhos devem expressar ou recriar os elementos estéticos, semânticos e discursivos da cultura e da língua do participante, bem como contribuir para o desenvolvimento, promoção e difusão literária na língua indígena. Os interessados podem se inscrever clicando aqui.

Via PUBLISHNEWS

IPOL Pesquisa

Receba o Boletim

Facebook

Revista Platô

Visite nossos blogs

Clique na imagem

Clique na imagem

Visitantes

Arquivo