Diversidade linguística

Embaixador da Bélgica destaca língua neerlandesa como expressão de identidade, cultura e diversidade

Encontro reuniu integrantes do corpo diplomático e convidados para celebrar uma língua que conecta Bélgica, Países Baixos e Suriname

DIPLOMACIA E EMBAIXADAS|Fabiana CeyhanOpens in new window

Brasília recebeu, nesta quinta-feira (1º), uma celebração especial pela , promovida pelas Embaixadas da Bélgica, dos Países Baixos e do Suriname, em colaboração com a Universidade de Brasília (UnB).  Com o tema “Juntos em Neerlandês”, o encontro reuniu integrantes do corpo diplomático e convidados para celebrar uma língua que conecta os três países, apesar de suas diferentes histórias, culturas e realidades geográficas.

 

Entre as principais presenças estiveram o embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert, o embaixador dos Países Baixos, Aldrik Gierveld, e o embaixador do Suriname, Ike Desmond Antonius, representando três nações ligadas pelo uso da língua neerlandesa.

A presença conjunta dos chefes de missão reforçou o caráter diplomático e multicultural da iniciativa, além de evidenciar o papel da língua, da educação e da cultura como instrumentos de aproximação entre povos.

A participação da Universidade de Brasília acrescentou uma dimensão acadêmica à celebração, aproximando o universo universitário das representações diplomáticas e estimulando o interesse pelo idioma e pela diversidade cultural das sociedades que o utilizam.

A Semana da Língua Neerlandesa vai além da celebração de um idioma. A iniciativa evidencia como uma língua compartilhada pode atravessar continentes, conectar diferentes identidades e contribuir para o fortalecimento das relações culturais, acadêmicas e regionais.

Fabiana Ceyhan — Embaixador, vivemos em um mundo cada vez mais conectado, no qual algumas línguas, como o inglês e o espanhol, têm grande projeção internacional. Nesse contexto, qual é a importância de preservar e promover o neerlandês, tanto como instrumento de comunicação quanto como expressão cultural e de identidade dos povos que o utilizam?

Embaixador da Bélgica destaca língua neerlandesa como expressão de identidade, cultura e diversidade em entrevista ao R7

Embaixador Chris Hoornaert — Acho que é uma necessidade no mundo sermos capazes de falar uns com os outros. Por isso, não é ruim existirem algumas línguas que são conhecidas mundialmente. Mas a especificidade dos países e das populações, a preservação de sua própria identidade, história e cultura, também está ligada à língua. Portanto, não podemos perder isso. Mesmo que uma língua não tenha importância mundial, ela será importante quando o mundo vier nos visitar. Como disse o meu colega Aart, as pessoas vêm nos visitar e um dos elementos da nossa cultura será justamente a língua. É algo específico.

É sempre um prazer perceber como as coisas estão conectadas e podem ser semelhantes. O neerlandês, por exemplo, eu diria que está entre o alemão e o inglês.

Fabiana Ceyhan — Em inglês, utiliza-se o termo “Dutch”. É esse o nome da língua?

Embaixador Chris Hoornaert — “Dutch” é a palavra utilizada em inglês. Nós falamos “Nederlands”, ou neerlandês.

Fabiana Ceyhan — E em quantos países o neerlandês é falado?

Embaixador Chris Hoornaert — Nos Países Baixos, na Bélgica e no Suriname. Mas, quando olhamos para a história, vemos que as fronteiras também mudam. Foi por isso que mencionei em meu discurso que, às vezes, pessoas são perseguidas porque falam uma língua diferente.

Nós, por exemplo, também tínhamos o neerlandês no norte da França. Em determinado momento, porém, houve a ideia de construir um Estado centralizado, com uma única cultura. Dialetos e línguas regionais, como aqueles próximos do occitano ou do neerlandês na região de Flandres, acabaram perdendo espaço.

Há essa concepção de que reunir todos em torno de uma única língua e de um único sistema seria melhor.

Também mencionei isso porque ainda existem países onde as pessoas não têm liberdade para falar sua própria língua. E isso é uma questão cultural. A cultura nos fortalece. É como acontece com nossas famílias: cada família possui hábitos específicos dos quais se orgulha. Uma cidade também pode ter algo especial. Até a comida faz parte disso.

Fabiana Ceyhan — Claro. Tudo isso faz parte da cultura.

Embaixador Chris Hoornaert — Exatamente. É tudo sobre cultura. E, por isso, também é uma questão de respeito por aqueles que são diferentes.

Quando falamos de uma língua, falamos igualmente das diferenças e da diversidade existentes dentro dela. E isso não é algo ruim.

Fabiana Ceyhan — Bélgica, Países Baixos e Suriname também trabalham conjuntamente para preservar e promover o neerlandês. Essa celebração reúne os três países todos os anos?

Embaixador Chris Hoornaert — Aqui fazemos isso com os três embaixadores, mas nossos governos também trabalham juntos. Temos um tratado internacional sobre o neerlandês e sobre sua preservação.

Nossos ministros da Cultura e da Educação já se reuniram mais de cem vezes para discutir como estimular nossa língua, como promovê-la e como garantir sua continuidade. Portanto, a língua também nos une.

É muito positivo observar, por exemplo, como o neerlandês conseguiu sobreviver e se desenvolver no Suriname, provavelmente recebendo influências diferentes de outras línguas. Na Bélgica, certamente temos maior influência do francês, enquanto nos Países Baixos existe uma influência muito forte do inglês.

Mas também existe um sentimento de pertencimento conjunto, de estarmos unidos. E há a questão do respeito: o mundo exterior deve respeitar aquilo que somos, mesmo que sejamos apenas um pequeno grupo.

Fabiana Ceyhan — Podemos dizer, então, que a língua é também parte fundamental da identidade de um povo.

Embaixador Chris Hoornaert — Sim. E devemos sempre respeitar as diferentes identidades e as diferentes culturas.

Às vezes nos esquecemos disso. Quando voltamos mil ou dois mil anos na história e observamos diferentes culturas, percebemos que elas também possuíam línguas diferentes. Tudo começa também pela língua, pela capacidade de nos comunicarmos.

E mesmo que não seja necessário voltar tanto no tempo, encontramos muitos exemplos interessantes dessa relação entre língua, cultura e identidade.

Fabiana Ceyhan — Muito obrigada, embaixador.

Confira a matéria no link: https://noticias.r7.com/prisma/diplomacia-e-embaixadas/embaixador-da-belgica-destaca-lingua-neerlandesa-como-expressao-de-identidade-cultura-e-diversidade-em-entrevista-ao-r7-03102026/

Eleições 2026: cartazes em línguas indígenas orientam votação em aldeias de São Paulo

Materiais em Guarani e Guarani Mbya trazem orientações sobre a votação e outros serviços da Justiça Eleitoral para o pleito de 4 de outubro

Garantir o direito ao voto também significa considerar as diferentes realidades de quem vive em regiões mais isoladas ou de difícil acesso. Nas Eleições 2026, eleitoras e eleitores indígenas terão acesso a cartazes com orientações sobre o pleito em suas próprias línguas. Os materiais reúnem informações sobre temas como proibição do uso do celular na seção eleitoral, justificativa, boca de urna, entre outros. A iniciativa integra o Programa de Inclusão Político-Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) que, além de atuar nos territórios indígenas, desenvolve ações com o eleitorado quilombola, caiçara e de outras comunidades tradicionais que vivem em locais de difícil acesso.

Para o pleito deste ano, a Secretaria de Comunicação Social (Secom) do TRE-SP preparou modelos específicos para 15 zonas eleitorais que possuem eleitores da etnia Guarani-Mbya. Os cartazes explicam a ordem de votação, o uso da cola eleitoral e as regras de preferência na fila de votação, de acordo com as necessidades dessas comunidades. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também produziu e encaminhou ao estado cartazes na língua Guarani, que serão enviados a 14 aldeias.

A medida ocorre em um cenário de crescimento no estado do eleitorado que se identifica como indígena. São Paulo tem mais de 7.400 eleitoras e eleitores indígenas aptos a votar nas Eleições 2026, o dobro dos 3.700 registrados nas Eleições Municipais de 2024, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A iniciativa está alinhada à Resolução do TSE nº 23.659/2021, que estabelece que o atendimento aos povos indígenas deve considerar sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. A norma também assegura o uso das línguas maternas no atendimento eleitoral.

                      Cartaz transferência Guarani Mbya – TRE-SP

Voto mais perto de casa

Além do eleitorado índigena, as ações do TRE-SP contemplam ainda quilombolas, caiçaras e outras comunidades tradicionais com a transferência temporária de eleitoras e eleitores, o transporte e a participação de pessoas das próprias comunidades no atendimento durante o pleito.

Em 2026, por meio do Programa de Inclusão Político-Eleitoral, foram realizadas ações itinerantes e facilitadas de transferências temporárias para pessoas que vivem nessas localidades. Com as mudanças, alguns eleitores que antes precisavam percorrer cerca de duas horas para votar poderão chegar à seção em aproximadamente 20 minutos.

No entanto, quando o deslocamento ainda é necessário, o transporte também faz parte do planejamento. Neste pleito, 16 aldeias indígenas e quilombos terão transporte fornecido pela Justiça Eleitoral. Em outras regiões, o deslocamento será feito por meio de linhas disponibilizadas pelas prefeituras. Em Ilhabela, também houve articulação com a Polícia Militar para o transporte de urnas, materiais e pessoas até as comunidades caiçaras isoladas de Bonete e Castelhanos.

                  Cartaz manual do eleitor traduzido para Guarani Mbya

Apoio de quem conhece a comunidade

A preparação para o pleito conta ainda com a participação de pessoas que conhecem de perto a realidade de cada comunidade. Em diferentes zonas eleitorais, foram designados apoios logísticos e colaboradores para auxiliar no atendimento ao eleitorado indígena. Esses profissionais poderão prestar informações no idioma local, organizar o fluxo nos locais de votação, esclarecer dúvidas e ajudar na articulação do transporte entre as aldeias e as seções eleitorais.

Na 403ª Zona Eleitoral — Jaraguá, houve treinamento específico sobre os cartazes traduzidos, além da atuação de mesários e apoios indígenas. Na 381ª ZE — Parelheiros, foi convocado apoio indígena e estabelecida interlocução com lideranças e servidores da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para reforçar o atendimento nas escolas que recebem eleitorado da Terra Indígena Tenondé. Em outras regiões do estado, também foram adotadas medidas para contar com integrantes das próprias comunidades ou colaboradores articulados com as lideranças locais.

imprensa@tre-sp.jus.br

 

Confira a matéria na fonte: https://www.tre-sp.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/eleicoes-2026-cartazes-em-linguas-indigenas-orientam-votacao-em-aldeias-de-sao-paulo

Instituto Federal abre 300 vagas em especialização EaD gratuita em Línguas Indígenas de Sinais

Por Marina Damasceno

 

O  Instituto Federal da Bahia (IFBA), por meio do Campus Porto Seguro, abriu 300 vagas gratuitaspara a Especialização em Línguas  Indígenas de Sinais (LIS). O curso será oferecido a distância, tem 450 horas e inscrições de 3 a 18 de outubro de 2026. A seleção, regulamentada pelo Edital nº 24/2026/PRPGI/IFBA, alcança candidatos de todas as regiões do país.

IFBA abre edital para Especialização em Língua Brasileira de Sinais:

O curso é uma pós-graduação lato sensu gratuita, conduzida em ambiente virtual institucional. A programação combina atividades síncronas e assíncronas, permitindo que os conteúdos sejam acessados ao longo da semana, de acordo com a organização de cada estudante. A duração prevista é de 12 meses.

O foco formativo é relevante porque as línguas de sinais usadas em povos  indígenas não devem ser reduzidas a uma simples variação da Libras. Elas podem ter vocabulários, usos sociais e formas de transmissão ligados a histórias e comunidades específicas. Na escola, ignorar essa dimensão pode produzir barreiras de comunicação e de participação, mesmo quando há boa intenção de inclusão.

Para docentes, coordenadores e equipes de apoio, o curso pode contribuir para qualificar o diálogo entre  educação especial, educação escolar indígena e práticas pedagógicas interculturais. O ganho não está em prometer uma solução pronta para cada realidade, mas em construir repertório para escuta, planejamento conjunto e encaminhamentos respeitosos com as comunidades e suas lideranças.

Vagas por região

As vagas não foram concentradas apenas na Bahia. O edital prevê a mesma quantidade de lugares para cada região geográfica brasileira, uma distribuição que pode favorecer a formação de redes de troca entre profissionais de diferentes territórios. A classificação e as reservas de vagas devem ser verificadas diretamente no documento oficial.

Região Vagas
Norte 60
Nordeste 60
Centro-Oeste 60
Sudeste 60
Sul 60
Total 300

Quem pode se inscrever

O edital é voltado a profissionais graduados. Entre os perfis destacados pelo IFBA estão professores de comunidades indígenas com licenciatura, egressos de cursos de Licenciatura ou Bacharelado em Letras-Libras, Licenciatura Intercultural Indígena, Pedagogia Intercultural Indígena e Pedagogia. Também entram no público potencial professores não indígenas, gestores e técnicos da Educação Básica pública ou privada.

Há ainda a possibilidade de participação de graduados de outras áreas que pretendam contribuir para a estruturação de redes de ensino para indígenas surdos, desde que atendam às exigências previstas. Essa abertura não dispensa a conferência cuidadosa do edital: o candidato deve checar se sua formação, o nível de conhecimento linguístico e os documentos solicitados correspondem à modalidade de concorrência escolhida.

Como fazer a inscrição

As inscrições são exclusivamente on-line, no site do  IFBA Campus Porto Seguro, de 3 a 18 de outubro de 2026.

Etapa Informação
Inscrições 03 a 18/10/2026
Curso Especialização em Línguas Indígenas de Sinais (LIS)
Modalidade Educação a Distância, com atividades síncronas e assíncronas
Custo Gratuito

O candidato deve usar um e-mail que acompanhe com frequência e guardar os comprovantes de envio. Eventuais retificações, cronograma detalhado, critérios de seleção e o acesso ao formulário são divulgados na página do processo seletivo. Não deixe a conferência de documentos para o último dia, principalmente se precisar obter declarações de experiência ou de formação.

Inscrições abertas até 18 de outubro de 2026

A seleção é gratuita e ocorre pela internet. Consulte as regras, os documentos e o formulário na página oficial do IFBA Campus Porto Seguro.

Acessar o Edital nº 24/2026/PRPGI/IFBA

Confira a matéria na fonte: https://www.pebsp.com/instituto-federal-abre-300-vagas-em-especializacao-ead-gratuita-em-linguas-indigenas-de-sinais/

 

Ciclo de Palestras “Políticas Linguísticas para o Multilinguismo” – evento online, participe!

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O NILT/SINTER e a Cátedra UNESCO de Políticas Linguísticas para o Multilinguismo da UFSC realizam um ciclo de palestras online sobre políticas linguísticas. O primeiro encontro ocorre em 20 de agosto, das 10h às 11h30, com participação gratuita e foco em ciência, educação superior e multilinguismo.

 

Profa. Dra. Paula Clarice Santos Grazziotin de Jesus é Doutora em Linguística (UFSC, 2018), com Pós-Doutorado em Educação UFSC, 2022), Mestra em Educação (UNIPLAC 2013); Especialista em Ciências Penais (UNIDERP 2012); Especialista em Língua Portuguesa – Produção e Revisão de textos (UNIPLAC 2008); Bacharel em Direito (UNIPLAC 2007); Licenciada em Letras – Português, Inglês e Literaturas Correspondentes (UNIPLAC 2006). Atualmente é docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IFSC) na área de Língua Portuguesa.

 Faça sua inscrição através do e-mail nilt.sinter@gmail.com

Participe!

Projeto Wikikaingáng fortalece a presença digital da língua Kaingáng

Por Emanuelli Oliveira

A Cátedra UNESCO em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo, sediada na Universidade Federal de Santa Catarina e coordenada pelo professor Gilvan Müller de Oliveira, concluiu, em maio de 2026, a assessoria ao projeto Wikikaingáng, iniciativa desenvolvida no âmbito da Ação Saberes Indígenas na Escolada Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenada neste ano pelo professor Bruno Ferreira Kaingang, com foco na criação da primeira Wikipédia em uma língua indígena brasileira.

O povo Kaingáng está entre os povos indígenas mais numerosos do Brasil, com presença principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Sua língua pertence ao tronco linguístico Macro-Jê, mais especificamente ao grupo Jê Meridional, apresentando diferentes variantes linguísticas relacionadas às diversas regiões onde as comunidades estão localizadas. Além disso, o povo Kaingáng possui uma importante atuação no campo da educação indígena onde diferentes escolas indígenas desenvolvem ações voltadas ao fortalecimento da língua, da memória e dos conhecimentos tradicionais nas comunidades.

O encerramento das atividades de assessoria da UCLPM ocorreu durante o encontro presencial realizado entre os dias 4 e 6 de maio, na Faculdade de Educação da UFRGS, em Porto Alegre/RS, reunindo orientadores, professores e lideranças Kaingáng.

Profº Gilvan M. de Oliveira, Profº Bruno F. Kaingang, Emanuelli Oliveira e Artur Correa. Fonte: GT Geopolíticas do Multilinguismo.

Ao longo dos três dias de atividades, os participantes compartilharam experiências pedagógicas desenvolvidas nas escolas indígenas, realizaram leituras coletivas de verbetes elaborados por eles, discutiram categorias próprias de organização do conhecimento Kaingáng, escreveram e aprimoraram novos verbetes e deram continuidade à tradução da interface da Wikipédia para a língua Kaingáng.

Os trabalhos envolveram diferentes eixos temáticos, como cantigas, alimentação, remédios, artesanato, histórias tradicionais, brincadeiras, frutas, memória coletiva, povo e escola indígena Kaingáng, fortalecendo a construção de uma plataforma digital alinhada às formas próprias de organização cultural e linguística do povo Kaingáng. Durante o encontro, houve um avanço expressivo no processo de tradução da interface da Wikipédia, alcançando a marca de 334 dos 584 principais termos traduzidos para o Kaingáng.

Por se tratar de um ambiente aberto e colaborativo, o projeto também foi pensado de modo a possibilitar a participação de diferentes regiões Kaingáng e de suas variedades linguísticas, buscando construir um espaço digital capaz de acolher a diversidade linguística presente entre as comunidades.

Outro ponto importante do encontro foi a discussão sobre a integração de recursos de áudio e vídeo aos verbetes, buscando valorizar a oralidade e os registros de memória da comunidade. Também houve troca de experiências com participantes da comunidade Mbyá-Guarani, fortalecendo o diálogo intercultural entre os povos indígenas envolvidos na iniciativa.

Desenvolvido entre novembro de 2025 e maio de 2026, o projeto contou com assessoria da UCLPM, com participação de Emanuelli Oliveira, do GT Geopolíticas do Multilinguismo, e de Artur Corrêa Souza, da Wikimedia Brasil. A iniciativa contou também com a participação ativa da equipe da Ação Saberes Indígenas nas Escolas do RS, composta pela profª Magali Mendes de Menezes, profª Daniela Pinheiro Machado Kern, Juliana Schneider Medeiros, Mariana Martins Maciel, Bianka Biazuz Vicente, Iracema Nascimento, Derli Bento e Sueli Krengre Candido.

Encontro na UFRGS: parte da equipe da Ação Saberes Indígenas na Escola e professores orientadores. Fonte: Ação Saberes Indígenas na Escola do RS.

Entre os principais resultados alcançados ao longo da assessoria, destacam-se a criação de 305 verbetes em língua Kaingáng na Incubadora Wikimedia, a formação de mais de 50 professores/as Kaingáng para atuação em ambientes digitais colaborativos e o fortalecimento das discussões sobre soberania linguística digital, circulação de conhecimentos indígenas e presença das línguas indígenas no ciberespaço. Mais do que uma proposta tecnológica, a Wikikaingáng consolidou-se como uma iniciativa voltada à valorização da língua Kaingáng, da memória coletiva e dos sistemas próprios de conhecimento indígena em ambientes digitais colaborativos, articulando universidade, comunidade e plataformas abertas de circulação do conhecimento.
Como encaminhamento final do projeto, está sendo elaborado o relatório técnico que será enviado ao Comitê de Novas Línguas da Fundação Wikimedia, etapa importante para a futura abertura oficial da Wikipédia em língua Kaingáng. O documento consolida os resultados alcançados ao longo da assessoria da UCLPM, fortalecendo a presença digital da língua Kaingáng e a circulação de conhecimentos indígenas em ambientes digitais.

Cacica Iracema Gãh Té e professora kaingáng. Fonte: Ação Saberes Indígenas na Escola do RS.

Emanuelli Oliveira

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina. Licenciada e bacharela em Letras – Língua Francesa e Literaturas e Graduada em Secretariado Executivo pela Universidade Federal de Santa Catarina.

 

Confira no link: https://geomultling.ufsc.br/projeto-wikikaingang-avanca-na-criacao-da-primeira-wikipedia-em-lingua-indigena-brasileira/

Valorização da identidade linguística das comunidades indígenas sob o viés da política linguística: reflexões acerca de entraves e tentativas de superação

 

logo Revista Lingu´ística

O texto aborda os percalços e as buscas por mecanismos que possam propiciar a mitigação das dificuldades para valorização da identidade linguística das comunidades indígenas prevista constitucionalmente. O intuito da pesquisa é apresentar as previsões relativas à diversidade linguística existentes no ordenamento jurídico, verificar se há efetividade delas na sociedade brasileira, em especial, quanto às comunidades indígenas, e apresentar casos concretos pertinentes à temática. Para isso, serviram de base teórica conceitos atrelados à política linguística (Monteagudo, 2012) e ao direito linguístico (Abreu, 2018). De modo geral, apesar de relevantes avanços jurídicos, os direitos previstos legalmente ainda são ineficazes, ante a falta de conhecimento e de compromisso por parte dos poderes estatais, além da atuação da própria sociedade que, por meio de uma política linguística não oficial, imprime na sociedade atual o monolinguismo e a homogeneidade linguística (Shohamy, 2006). Desse modo, embora existam os entraves, parte da sociedade, principalmente os integrantes das comunidades indígenas, tenta buscar ferramentas para concretizar os direitos linguísticos, mesmo sem o apoio do aparato estatal, e, ao fim, ao valorizar as diversidades linguísticas, procura integrá-las à identidade nacional.

Por Solyany Soares Salgado e Elyne Giselle de Santana Lima Aguiar Vitório


Introdução
O respeito à diversidade linguística das comunidades indígenas no Brasil consta na Constituição da República Federativa do Brasil (doravante CRFB), de 1988, chamada de Constituição Cidadã, na qual também estão previstas algumas garantias para a valorização das suas identidades, seja assegurando o uso das suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem no ensino fundamental (art. 210, §2º), protegendo as manifestações culturais (art. 215) ou reconhecendo “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, além dos direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” (art. 231).
Validados pela CRFB, outros aparatos jurídicos surgiram no intuito de efetivar e ampliar os direitos pertinentes aos indígenas, como no caso do Decreto nº 7.387/2010, Inventário Nacional da Diversidade Linguística, da Lei de Diretrizes e Bases, do Plano de Educação Estadual de Alagoas e, no âmbito internacional, como o ingresso da Convenção nº 169, da Organização Internacional do Trabalho, no ordenamento jurídico brasileiro.
No entanto, como será abordado neste trabalho, existem vários percalços para a efetividade dessas garantias, os quais estão presentes tanto nas vias formais quanto nas informais da sociedade brasileira. Conforme teoriza Shohamy (2006), há, no cotidiano, uma tentativa de afirmar a hegemonia da língua portuguesa, de fazer crer que o país é monolíngue e que as demais línguas não possuem o mesmo status no quesito da nacionalidade.
Diante dos entraves, é notório que têm sido realizadas buscas por mecanismos que possam propiciar a mitigação das dificuldades para valorização da identidade linguística das comunidades indígenas e do atendimento às garantias legais no que diz respeito aos direitos linguísticos. Nesse sentido, na maioria das vezes, são os próprios indígenas, ao enfrentar o aparato estatal, que lutam para a efetivação dos seus direitos.
Vale destacar que, apesar de vasta literatura a respeito das políticas linguísticas atinentes às línguas indígenas brasileiras, este trabalho optou por adotar como base teórica os fundamentos de Monteagudo (2012), atrelados à origem do monolinguismo e da sua relação com a política linguística dos Estados, e de Abreu (2018), referentes ao direito linguístico.
Os preceitos apontados pelos supracitados autores se mostraram fundamentais para compreensão a respeito das previsões relativas à diversidade linguística existentes no ordenamento jurídico e para a análise sobre a efetividade delas na sociedade brasileira, em especial, quanto às comunidades indígenas, além de darem subsídios para reflexão sobre a atuação estatal, tendo, como exemplos, casos concretos pertinentes à temática.
Desse modo, o texto está organizado em três tópicos, sendo o primeiro referente à noção de Estado-nação e de Estado Constitucional, para esclarecer a relação entre hegemonia e monolinguismo na maioria das sociedades, inclusive a brasileira. No segundo tópico, será abordada a questão da educação indígena, a qual, mesmo apresentando resguardo no ordenamento jurídico, tem sido dificultada pelo próprio poder estatal, restando aos indígenas encontrarem seus próprios meios para ensinar a língua materna e manter viva a sua cultura. O terceiro tópico remete à necessária modificação da conduta dos integrantes da máquina pública, vez que lhes cabe, muitas vezes, a efetivação dos direitos previstos no ordenamento jurídico, posto que, infelizmente, falta compromisso e existe descaso para com os direitos dos indígenas, inclusive, o direito linguístico.
Por fim, com base no exposto sobre os referidos tópicos, serão apresentadas considerações relativas à temática, a qual não se esgota nestas poucas linhas, havendo inúmeras barreiras para serem identificadas e superadas para que ocorra, de fato, a valorização da identidade linguística desse grupo minoritário e o reconhecimento da diversidade linguística para a identidade nacional brasileira.
Para continuar a leitura acesse o link:  https://revistas.ufrj.br/index.php/rl/article/view/60253 e confira os outros artigos desta edição especial aqui, edição completa: https://revistas.ufrj.br/index.php/rl/issue/view/2805/1949

v. 19 n. Sup. (2023): Valorizando a Diversidade: em Defesa da Identidade de Comunidades Linguísticas Vulneráveis / Minorizadas

 Visualizar v. 19 n. Sup. (2023): Valorizando a Diversidade: em Defesa da Identidade de Comunidades Linguísticas Vulneráveis / Minorizadas

Organização: Ana Paula Quadros Gomes (UFRJ) e Beatriz Protti Christino (UFRJ)

Esta edição reúne, em dois volumes, vinte e cinco artigos, trazendo um conjunto de questões proporcionando múltiplas visões sobre a diversidade linguística e destacando a necessidade de ações em defesa de várias comunidades linguísticas minorizadas. O tema mobilizou pesquisadores de diversas áreas de atuação e diferentes linhas de pesquisa, colocando em foco reflexões atinentes aos direitos linguísticos.

Publicado: 2023-12-15

 

Publicado em Revista Linguíʃtica 19(Sup.):127-141, Dezembro/23

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