Línguas de imigração

A única vila brasileira premiada pela ONU encanta como a “Itália Brasileira”, onde cerca de 80% da população ainda fala italiano

POR MAURA PEREIRA 20/05/2026
A única vila brasileira premiada pela ONU: a verdadeira Itália Brasileira onde 80% da cidade fala italiano

Antônio Prado, a Italia Brasileira na Serra Gaúcha (imagem ilustrativa)

Nas ruas de Antônio Prado, o “bom dia” soa como “bondì”. A 658 metros de altitude na Serra Gaúcha, essa cidade de 13 mil habitantes preserva o maior acervo arquitetônico da imigração italiana no Brasil, com casarões centenários de madeira que parecem ter saído de uma vila do Vêneto.

A última colônia italiana da serra que virou patrimônio nacional

Fundada em 1886 como a sexta e última colônia italiana da Serra Gaúcha, Antônio Prado nasceu às margens do Rio das Antas. Os imigrantes, vindos do norte da Itália, derrubaram matas e ergueram casarões com técnicas trazidas da Europa. O traçado das ruas, quadriculado, seguiu o padrão dos engenheiros militares do século XIX.

O isolamento geográfico que travou o crescimento econômico acabou preservando o casario intacto. Em 1990, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o conjunto arquitetônico e urbanístico. São 48 edificações construídas entre 1890 e 1940, ornamentadas com lambrequins, os recortes decorativos de madeira que marcam os beirais. Em 2025, a ONU Turismo reconheceu Antônio Prado como uma das melhores vilas turísticas do mundo, a única brasileira entre 52 selecionadas.

A única vila brasileira premiada pela ONU: 48 casas tombadas e 80% da cidade falando italiano

Antônio Prado oferece o cenário de casarões centenários de madeira que transportam os 13 mil habitantes para uma autêntica vila do norte da Itália // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

Por que 80% dos moradores ainda falam talian?

Porque o isolamento também preservou a língua. Cerca de 80% da população fala o talian, dialeto que mistura idiomas do norte da Itália com o português. Em 2014, a língua foi incluída no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL), reconhecimento inédito para uma língua de imigração no país. Nas padarias, nas feiras de sábado e nas missas, o talian ainda é o idioma das conversas entre vizinhos.

A única vila brasileira premiada pela ONU: 48 casas tombadas e 80% da cidade falando italiano
Antônio Prado destaca-se na Serra Gaúcha, a 658 metros de altitude, como a cidade que preserva o maior acervo arquitetônico da imigração italiana no Brasil // Créditos: Wikipedia / Wikimedia Commons

O que visitar no centro histórico de Antônio Prado?

O centro cabe numa caminhada de duas horas. As 48 construções tombadas se concentram ao redor da Praça Garibaldi e ao longo da avenida principal, transformadas em cafés, bistrôs, museus e lojas de produtos coloniais.

  • Casa da Neni: primeiro imóvel tombado da cidade, construído em 1910. Abriga o Museu Municipal e a Central de Informações ao Turista. Visitantes caminham por cômodos com mobiliário original.
  • Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus: erguida entre 1891 e 1897, tem pinturas internas do artista italiano Emilio Zanon e vitrais restaurados após o tornado de 2003.
  • Casa Grezzana: casarão de 1915 que recebe exposições culturais e eventos da FenaMassa.
  • Monumento Leão de São Marcos: réplica do símbolo da República de Veneza, esculpida em pedra de Vicenza pelo artista Enrico Pasquale.
  • Sociedade Pradense de Mútuo Socorro: prédio de 1912 que já abrigou farmácia, escola dos Irmãos Maristas e, durante a Segunda Guerra, teve documentos em italiano recolhidos pela polícia.

Quem quer conhecer a cidade mais italiana do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Diogo Elzinga, que conta com mais de 567 mil visualizações, onde Diogo Elzinga mostra a gastronomia, o centro histórico e o interior de Antônio Prado:

Cachoeiras e rotas rurais além do casario

O interior do município, chamado de “colônia” pelos moradores, guarda paisagens que contrastam com a delicadeza do centro histórico. A 6 km da área urbana, as Cascatas da Usina formam duas quedas d’água separadas por 300 metros, com três mirantes de contemplação. No local funcionou a primeira hidrelétrica de Antônio Prado, na década de 1920.

A Gruta Natural de Nossa Senhora de Lourdes recebe fiéis desde os anos 1930. Escavada na rocha, abriga um campanário de madeira e trilhas curtas em meio à mata. Nas estradas rurais, 25 capitéis religiosos marcam o caminho e revelam a devoção herdada dos colonizadores. O Armazém do Prado, na Linha 21 de Abril, oferece passeios de tuque-tuque e piqueniques coloniais com vista para o vale.

Que pratos experimentar na cidade mais italiana do Brasil?

A mesa pradense preserva receitas passadas de geração em geração. A brachola com polenta e bacon frito, preparada na Linha 21 de Abril, foi eleita o melhor prato italiano do Brasil no programa “Minha Receita”, do chef Erick Jacquin, na Rede Bandeirantes.

  • Sopa de capeletti: servida como entrada em praticamente todas as cantinas, com massa feita à mão.
  • Polenta brustolada: fatias grelhadas que acompanham galeto e radicci com bacon.
  • Grostoli: tiras de massa frita polvilhadas com açúcar, presente em festas e padarias.
  • Vinho colonial: produzido em pequenas vinícolas familiares, servido em jarra nas cantinas do centro.

A FenaMassa (Festival Nacional da Massa) acontece em novembro na Praça Garibaldi, com mais de 50 variedades de massa e estrutura para milhares de visitantes. A Noite Italiana, em agosto, reúne jantar dançante com cardápio típico e música ao vivo.

Como chegar a Antônio Prado saindo de Porto Alegre?

Antônio Prado fica a 184 km de Porto Alegre pela RS-122 e a 50 km ao norte de Caxias do Sul. De carro, o trajeto desde a capital leva cerca de 2h30. Ônibus intermunicipais partem de Cias do Sul com frequência regular. Quem vem do litoral gaúcho pode usar a Rota da Uva e Vinho como caminho cênico pela serra.

A vila onde o Brasil ainda fala italiano

Antônio Prado é um daqueles lugares que fazem o visitante desacelerar. Os casarões de madeira, as cantinas com cheiro de massa fresca e as conversas em talian nas calçadas criam uma atmosfera que nenhuma outra cidade da Serra Gaúcha reproduz.

Você precisa caminhar pela Praça Garibaldi num fim de tarde e ouvir o som do talian misturado ao barulho dos pratos nas cantinas, é quando Antônio Prado se revela por inteiro.

Acesse a matéria no link: https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/a-unica-vila-brasileira-premiada-pela-onu-encanta-como-a-italia-brasileira-onde-cerca-de-80-da-populacao-ainda-fala-italiano/#google_vignette

O mistério do município brasileiro que preserva uma língua que não existe mais na Europa

Localizado no Espírito Santo, o município de Santa Maria de Jetibá se tornou uma cápsula do tempo para o pomerano, língua que foi apagada do mapa europeu após a Segunda Guerra Mundial

Vemos uma senhora idosa e uma criança em Santa Maria de Jetibá, em uma varanda rústica cercada pelas lavouras de café nas montanhas capixabas. Elas seguram um livro didático com o título claramente visível: 'POMMERANISCH LERNEN' / 'APRENDENDO O POMERANO'

A cidade de Santa Maria de Jetibá tornou-se o principal refúgio global do pomerano / Imagem ilustrativa

 

No entanto, um fenômeno linguístico raro transformou as montanhas do Espírito Santo em um “cofre” vivo. A cidade de Santa Maria de Jetibá tornou-se o principal refúgio global do pomerano, um idioma que foi praticamente apagado do continente europeu, mas que encontrou solo fértil no Brasil para sobreviver ao tempo.

A Pomerânia era uma região histórica entre a Alemanha e a Polônia que foi desmembrada após a Segunda Guerra Mundial.

Enquanto na Europa a língua original desapareceu devido às pressões políticas e geográficas, no interior capixaba o pomerano continuou a ecoar nas lavouras e no cotidiano das famílias.

Esse tipo de isolamento cultural não é um caso isolado em solo brasileiro.

O país abriga outros refúgios fascinantes, como o município onde o tempo parou para guardar os segredos de uma Ucrânia antiga, provando que o Brasil é um mosaico de culturas globais preservadas.

O idioma que sobreviveu ao próprio país

O pomerano não é uma curiosidade de museu em Santa Maria de Jetibá; ele é a língua do dia a dia.

É comum ouvir o dialeto nas feiras livres, nas rádios locais e nas conversas entre vizinhos no comércio.

Por décadas, o isolamento das comunidades agrícolas permitiu que o pomerano se mantivesse intacto, sem a influência direta do português.

Hoje, o município reconhece oficialmente o pomerano como língua cooficial.

Isso significa que placas de sinalização costumam ser bilíngues e o idioma tem o mesmo peso jurídico que o português em diversas instâncias municipais, um nível de reconhecimento raríssimo para línguas de imigrantes no Brasil.

Resistência nas salas de aula

A maior prova de vitalidade dessa cultura está nas novas gerações. Diferente de outros redutos europeus no Brasil onde a língua de origem se perdeu com o passar dos anos, em Santa Maria de Jetibá o pomerano é ensinado obrigatoriamente nas escolas municipais.

O ensino formal garante que os jovens mantenham o vínculo com a história de seus antepassados e consigam conversar com os mais velhos.

Como um patrimônio cultural imaterial, o pomerano deixou de ser apenas a herança de uma terra que não existe mais para se tornar um símbolo de identidade e resistência cultural no coração do Sudeste brasileiro.

 

 

 

A língua falada no Sul do Brasil por antepassados de Gisele Bündchen e Rodrigo Hilbert que está desaparecendo

Como muitos das gerações posteriores, Gisele Bündchen e Rodrigo Hilbert não falam a língua dos trisavós. CRÉDITO, GETTY IMAGES

 

Por Luiz Antônio AraujoDe Porto Alegre para a BBC News Brasil

Se uma máquina do tempo permitisse à modelo Gisele Bündchen, ao goleiro Alisson Becker e ao ator Rodrigo Hilbert encontrar seus ancestrais vindos da Europa, seria necessária a presença de um intérprete.

Caso o profissional escalado falasse exclusivamente o alemão padrão (Standarddeutsch), ainda assim a comunicação seria truncada.

Como a maioria dos alemães que vieram para o Brasil no século 19, os Bündchen, os Becker e os Hilbert usavam cotidianamente um vernáculo diferente do idioma dominante na atual Alemanha.

Tratava-se de uma variedade baseada no que os linguistas chamam de “continuum dialetal”: uma série de formas assumidas por uma língua ao longo de uma região, com variações cumulativas à medida que a distância aumenta.

Os antepassados dessas celebridades não chamariam sua língua de Deutsch (língua alemã, no alemão padrão), e sim Deitsch, Düütsk, Plattdeitsch ou simplesmente Platt (baixo-alemão ou Plattdeutsch).

Assim era denominado o idioma falado na área delimitada pelos rios Mosela e Reno, nas imediações das cidades de Bingen, Trier e Koblenz, na Renânia Central, entre os atuais Estados da Renânia-Palatinado e do Sarre.

Dessa região, conhecida como Hunsrück (pronuncia-se “runs-rík”), partiu a maior parte dos primeiros alemães a pisar em solo brasileiro.

Por mais de 200 anos, o hunsriqueano ou Hunsrückisch (“língua do Hunsrück”) foi transmitido de geração em geração no Brasil — onde surgiu, após transformações a partir do Platt.

Ainda hoje, é utilizado por mais de 1,2 milhão de pessoas — população equivalente à do município de Campinas (SP) —, segundo o livro Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração (IHLBrI) (Editora Garapuvu, 2018).

Há ainda comunidades que o utilizam na Argentina, Paraguai e Bolívia.

Essa língua padece, no entanto, de um fenômeno comum a milhares de vernáculos minoritários: a perda linguística, quando um idioma deixa de ser usado, transmitido ou plenamente dominado.

É por isso que nem uma engenhoca de ficção científica permitiria aos famosos mencionados no início desta reportagem — todos descendentes de alemães do Hunsrück e arredores — conversar com seus antepassados.

Gisele, Alisson e Rodrigo não falam a língua dos trisavós.

Universidade guarda coleção de raridades linguísticas

O professor da UFRGS Cleo Vilson Altenhofen guarda o maior acervo de hunsriqueano do mundo. CRÉDITO, LUIZ ANTÔNIO ARAUJO/BBC NEWS BRASIL

“Como uma língua subsiste por 200 anos sendo falada por poucas pessoas?”, indagou o professor titular do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Cleo Vilson Altenhofen ao receber a reportagem da BBC News Brasil, no final de setembro.

Nos armários, prateleiras e caixas que abarrotam sua sala, há um tesouro: o maior acervo de hunsriqueano do mundo.

São centenas de livros, cadernetas, cartas, diários, arquivos de áudio e vídeo, CDs, DVDs, fotos, cartazes, mapas, anúncios publicitários, roteiros, entre outros itens, neste idioma.

Muitas das vozes contidas nesse emaranhado arquivístico já desapareceram, ecoando apenas nos registros preservados pela UFRGS.

Não foi Altenhofen quem inventou o termo “hunsriqueano” para designar a língua de seus familiares, que chegaram a São Leopoldo (RS) dois dias depois do Natal de 1827.

Ele foi o primeiro, porém, a fazer referência à variante hunsriqueano rio-grandense (Riograndenser Hunsrückisch) em sua tese de doutorado pela Johannes Gutenberg-Universität Mainz, uma universidade na Alemanha, em 1996.

O termo ganhou até um verbete da Wikipédia.

Com o projeto Escrithu, o professor capitaneou a formalização da ortografia, de regras gramaticais e do vocabulário do hunsriqueano.

Também organizou, junto com Rosângela Morello, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração.

A obra, que mapeou uso consistente da língua em bastiões distribuídos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Espírito Santo), levou a encaminhamento de um pedido de reconhecimento do hunsriqueano como referência cultural brasileira no Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL).

Entretanto, o INDL foi atingido em 2019 por um decreto presidencial que acabou com órgãos colegiados federais, como a Comissão Técnica do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (CTINDL).

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a conclusão do pedido sobre o hunsriqueano depende da criação de um Conselho Nacional de Políticas para a Diversidade Linguística (CNPDL), o que está em tramitação no Ministério da Cultura.

“A Comissão é necessária para que se tenha condições técnicas para submeter a proposta de inclusão da língua Hunsrückisch (e de outras 25 línguas já inventariadas e mais 10 com pesquisas em andamento) no Inventário Nacional de Diversidade Linguística”, explicou o IPHAN.

Apesar de perceber a perda linguística em sua própria família, Altenhofen vê esse processo como algo natural. CRÉDITO, LUIZ ANTÔNIO ARAUJO/BBC NEWS BRASIL

Atualmente, sete línguas obtiveram o reconhecimento: seis indígenas (asurini, guarani m’bya, nahukuá, matipo, kuikuro e kalapalo) e uma europeia (o talian, falado por migrantes da região do Vêneto, hoje na Itália).

As línguas que recebem esse reconhecimento viram foco de ações de valorização por parte do Estado brasileiro.

Nem mesmo um erudito como Altenhofen, de 62 anos, está imune à perda linguística.

“Minha geração ainda teve a transmissão [do hunsriqueano]”, observa, referindo-se a si próprio, aos dois irmãos e às duas irmãs.

As filhas e sobrinhas do professor, por outro lado, são a primeira geração dos Altenhofen a não dominar o idioma dos ancestrais.

“A estrutura social mudou: Porto Alegre [onde vive e trabalha] não é Harmonia [município do Vale do Caí onde cresceu, fundado por migrantes alemães], e as novas gerações vivem em um mundo em que o português está muito mais presente”, reflete.

Mas o pesquisador considera a perda linguística um processo natural. Ele não se preocupa com o aumento — como ocorreu com o hunsriqueano no Brasil no século 19 — ou com a diminuição do número de falantes, e sim com a transmissão, o que move seu trabalho.

Na Alemanha, hunsriqueano é dialeto

Segundo o Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração, o hunsriqueano é uma das 14 línguas alemãs do Brasil.

Já na Alemanha, essa divisão não se aplica, explica Gilvan Müller de Oliveira, professor associado de Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).

Para o Estado alemão, existe uma única língua alemã, o alemão padrão, e dezenas de dialetos — incluindo o Pfälzisch, forma próxima do Hunsrückisch ainda hoje falada em certas partes do país europeu.

“A formação do estado-nação na Alemanha, na Itália e em outros países europeus está baseada na ideia de uma única língua, legitimada no caso alemão pela Bíblia de Lutero, no italiano pela Divina Comédia, de Dante Alighieri, e assim por diante”, explica Oliveira.

O restante, afirma o linguista, são dialetos colocados em segundo plano e que tiveram sua transmissão interrompida ou dificultada por uma “ideologia de língua única”.

“Isso é exatamente o contrário do que nós estamos fazendo no Brasil”, diz o professor.

Altenhofen (na foto, à dir.) durante entrevista para o projeto Atlas Linguístico-Contatual das Minorias Alemãs na Bacia do Prata: Hunsrükisch (ALMA-H). CRÉDITO, DIVULGAÇÃO/PROJETO ALMA-H/UFRGS

Oliveira explica que classificar o hunsriqueano como dialeto do alemão faz com que este pareça descartável.

“Temos de reconhecer a existência de várias línguas, como o alemão, o hunsriqueano, o pomerano, o vestfaliano, o bávaro, o suábio falado no Paraná e outras ilhas linguísticas reunidas no conceito de línguas alemãs”, diz.

Com essa política, o Brasil adota um curso inverso ao de boa parte de sua história, quando, segundo Oliveira, reprimiu os não falantes de português.

No Estado Novo, regime ditatorial liderado por Vargas entre 1937 e 1945, o uso público de línguas estrangeiras e indígenas foi proibido.

Um levantamento de Oliveira identificou 243 páginas de legislação federal e de leis em Santa Catarina que contribuíram com o combate à existência de várias línguas entre 1911 e 1963.

Atualmente, de acordo com os entrevistados, o Brasil avançou bem em políticas governamentais — municipais, estaduais e federais — para a preservação da diversidade linguística, incluindo por exemplo esforços relativos às línguas indígenas.

Em Nova Petrópolis, queda abrupta do número de falantes

Em Nova Petrópolis (RS), município de 23,8 mil habitantes na Serra Gaúcha, o hunsriqueano é uma das variantes do alemão cotidianamente utilizadas pela população.

O município foi um dos 41 pontos visitados entre 2017 e 2018 pela equipe de especialistas responsáveis pelo Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração.

“Não é fácil manter o Hunsrückisch por múltiplas razões: as novas gerações não frequentam mais a casa dos avós, e sim creches, e estão muito influenciadas pelo inglês”, afirma Célia Weber Heylman, de Nova Petrópolis.

Professora aposentada de alemão (padrão), Célia testemunhou em sala de aula a queda no número de falantes.

“Nos últimos anos, apenas um ou dois de cada 10 alunos falava alemão em família”, relata.

Como a maioria dos professores de alemão no Brasil, Célia vê o hunsriqueano como uma ponte para a aprendizagem do alemão padrão e de idiomas em geral — mas crê que o ensino deve ter por base o alemão padrão.

Distante 46 quilômetros de Nova Petrópolis, o município gaúcho de Santa Maria do Herval é palco de uma experiência distinta.

Em 2004, por iniciativa da linguista alemã Ursula Wiesemann, a localidade tornou-se laboratório de uma iniciativa inédita de valorização do hunsriqueano — chamado de Hunsrik nessa versão.

Batizado de Projeto Hunsrik Plat Taytx, o programa idealizado por Ursula incluiu a formalização de um sistema de escrita, a inclusão da língua no currículo escolar a partir de 2017 e a publicação de materiais didáticos e obras literárias.

O sistema foi registrado pelos criadores no Ethnologue, órgão responsável por catalogar as línguas do mundo e que serve de referência para organismos internacionais como a Unesco, braço das Nações Unidas para a educação.

No ano passado, o Hunsrik foi incluído como idioma no Google Tradutor.

Santa Maria do Herval oficializou o ensino do Hunsrik.CRÉDITO, DIVULGAÇÃO/PROJETO ALMA-H/UFRGS

Até o momento, além de Santa Maria do Herval, pelo menos outros quatro municípios oficializaram o ensino do sistema Hunsrik Plat Taytx: Estância Velha e Nova Hartz, também no Rio Grande do Sul; e Antônio Carlos e Treze Tílias, em Santa Catarina.

A pedagoga Márcia Fenner, de Santa Maria do Herval, relata que o Hunsrik faz parte do currículo da pré-escola ao 5º ano do ensino fundamental e, a partir desse ponto, é oferecido alemão padrão como língua estrangeira.

Márcia conta que, quando fazia contação de histórias em uma escola do interior onde não havia creche, 90% das crianças que falavam hunsriqueano em casa ficavam indiferentes ao ouvir relatos feitos em português.

De início, ela decidiu combinar as duas línguas mas, em seguida, passou a utilizar mais hunsriqueano.

“A interação foi incrível porque quando se conta uma historinha ou piadinha em alemão, sempre parece mais engraçado”, diverte-se a pedagoga.

Professora de alemão e ex-secretária municipal de Educação de Santa Maria do Herval, Maria Rejane Schuh Kuhn opôs-se à implantação do sistema Hunsrik Plat Taytx durante sua gestão, em 2009.

“As ações de preservar o hunsriqueano são importantes, mas o incentivo ao alemão padrão serve à conexão com a comunidade e os antepassados e abre muito mais portas [para o estudante] do que o dialeto”, afirma Maria Rejane.

Para Altenhofen, o desuso é fatal para o hunsriqueano e outras línguas minoritárias.

“Essas são línguas de comunidade, que fortalecem o pertencimento, a identidade”, afirma.

Uma palavra hunsriqueana sintetiza essa dimensão afetiva: mottersproch (língua materna).

 

Leia a matéria na fonte: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy0vx0p7l07o

 


Saiba mais sobre o Inventário do Hunsrückisch como Língua Brasileira de Imigração.

II ENMP – está chegando! confira o caderno de programação

O II Encontro Nacional de Municípios Plurilíngues (II ENMP) ocorrerá nos dias 1º e 2 de setembro, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e tem como objetivo aprofundar as discussões sobre a regulamentação das políticas de cooficialização de línguas no Brasil.

Este encontro será um espaço de troca de experiências, capacitação e debate sobre a regulamentação e a implementação da cooficialização, seus desafios e oportunidades, reunindo gestores públicos, pesquisadores, educadores, agentes culturais e demais interessados na promoção do multilinguismo brasileiro.

Em sintonia ao I ENMP/2015, que abordou a política de cooficialização de línguas pelos municípios, pretendemos, agora, elaborar orientações para a regulamentação e implementação das leis. Com mais esse passo, reafirmamos nosso compromisso de atuar em prol dos direitos linguísticos no Brasil e da valorização de todas as línguas brasileiras. A colaboração de vocês é de valor inestimável.

O II ENMP se propõe a discutir as ricas experiências já realizadas pelos 80 municípios plurilíngues do Brasil e avançar para o processo de regulamentação, abrindo para as administrações municipais novas possibilidades.

Nossa vontade é fazer deste Encontro um momento de celebração de trajetórias compartilhadas e de construção de novas parcerias.

Visite a página do evento em: https://geomultling.ufsc.br/ii-encontro-nacional-de-municipios-plurilingues/

 

Estimados/as participantes e palestrantes,

É com muita alegria que encaminhamos, em anexo, a programação final do nosso II Encontro Nacional de Municípios Plurilingues – II ENMP, que realizaremos em Florianópolis, nos dias 01 e 02 de setembro próximo.

Em sintonia ao I ENMP/2015, que abordou a política de cooficialização de línguas pelos municípios, pretendemos, agora, elaborar orientações para a regulamentação e implementação das leis. Com mais esse passo, reafirmamos nosso compromisso de atuar em prol dos direitos linguísticos no Brasil e da valorização de todas as línguas brasileiras. A colaboração de vocês é de valor inestimável.

Nossa vontade é fazer deste Encontro um momento de celebração de trajetórias compartilhadas e de construção de novas parcerias.

Assim, desde já, agradecemos a participação de cada um(a) e desejamos uma boa viagem aos que vêm de longe. Para qualquer eventualidade, por favor, entrem em contato conosco nos telefones/whatsapp: Rosângela Morello: 48 99933 – 8938 e Gilvan Müller de Oliveira 48 99916-1815.

Para mais informações sobre o II ENMP, confira: https://geomultling.ufsc.br/ii-encontro-nacional-de-municipios-plurilingues/

Até breve.

Rosângela Morello e Gilvan Müller de Oliveira

P/ Comissão Organizadora.

Confira o caderno de programação abaixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II ENMP – 1 e 2 de Setembro em Florianópolis

 

II Encontro Nacional de Municípios Plurilíngues

Embora frequentemente representado como um país monolíngue, o Brasil é, na realidade, um território profundamente plurilíngue, onde mais de 250 línguas são faladas cotidianamente. Frente a esse contexto, a Cátedra UNESCO em Políticas Linguísticas para o Multilinguismo (UCLPM) e o Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) reafirmam o compromisso com a promoção de políticas linguísticas plurais e inclusivas e promovem o II Encontro Nacional de Municípios Plurilíngues (II ENMP). O evento visa a reunir gestores públicos, pesquisadores, educadores, agentes culturais e comunidades linguísticas para fortalecer os processos de regulamentação e implementação das leis de cooficialização em municípios brasileiros, reafirmando o direito à diversidade linguística como pilar da cidadania e do desenvolvimento local.

O evento acontecerá nos dias 1 e 2 de setembro de 2025 na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Nesta edição, o formato será híbrido, com atividades presenciais, como mesas-redondas, palestras e workshop, e com comunicações orais realizadas de forma online, ampliando o alcance e a participação.

O II ENMP visa aprofundar as discussões sobre os desafios da cooficialização de línguas, com especial atenção às etapas seguintes à aprovação da lei municipal: a regulamentação e a implementação. Desde a pioneira experiência do município de São Gabriel da Cachoeira (AM), que em 2002 cooficializou o baniwa, o nheengatu e o tukano, 80 municípios brasileiros já adotaram medidas semelhantes, reconhecendo oficialmente 60 línguas, entre indígenas, de imigração, afro-brasileiras e de sinais, que podem ser conferidas aqui.

O II ENMP se propõe não apenas a celebrar os avanços obtidos com a cooficialização de línguas nos municípios brasileiros, mas também a discutir as ricas experiências já realizadas pelos 75 municípios e avançar para o processo de regulamentação, abrindo para as administrações municipais novas possibilidades.

Saiba mais acessando a página do evento: https://geomultling.ufsc.br/ii-encontro-nacional-de-municipios-plurilingues/

 

II ENMP – Prorrogado o prazo para envio de resumos!! Participe!!!

Prorrogado o prazo para envio de resumos!

O II Encontro Nacional de Municípios Plurilíngues está com chamada aberta até 27/07/2025 para envio de resumos simples (200–300 palavras).
O II ENMP se propõe a discutir as ricas experiências já realizadas pelos 80 municípios plurilíngues do Brasil e avançar para o processo de regulamentação, abrindo para as administrações municipais novas possibilidades.
Confira as normas e o cronograma no site:
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Aguardamos sua proposta e sua presença
Saiba mais acessando a segunda circular do evento:

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