Websérie produzida por jovens indígenas será lançada dia 31 de julho
Projeto “Reikwaapa-Saberes Guarani” é uma verdadeira experimentação audiovisual para os indígenas.

Foto: Reprodução/Secom Espírito Santo
A Websérie de quatro episódios “Reikwaapa-Saberes Guarani” é uma produção audiovisual feita por jovens da aldeia Kwaagwy Porã, localizada em Aracruz. Em cada episódio, guardiões da memória Guarani transmitem para os mais jovens os conhecimentos. O lançamento está marcado para este sábado (31), às 19 horas, no canal Reikwaapa no YouTube. A websérie conta com recursos de acessibilidades visual e auditiva (legendagem descritiva, audiodescrição e libras) em todos os episódios.
Foram três intensos meses de produção, durante a pandemia do novo Coronavírus (Covid-19). A partir de um roteiro escrito por Marcelo Guarani e Ricardo Sá, crianças, jovens e adultos da aldeia Kwaagwy Porã se envolveram na realização dos quatro episódios da websérie, incluindo filmagem, direção e edição.
Todo o processo de filmagem e edição foi feito pelos membros do núcleo de audiovisual, sem interferências (nem a presença física) da equipe não indígena. O acompanhamento do projeto foi todo feito à distância, respeitando as regras de isolamento social, essenciais neste momento de pandemia. Somente a parte de finalização da obra foi feita por Marlos Broco (que também exerceu a função de assistente de direção), em parceria com Ricardo Sá. Durante esta etapa, foi trabalhada a legendagem, que exigiu bastante cuidado para não distorcer o sentido das palavras faladas em guarani. Algumas palavras, inclusive, foram deixadas na língua original, para que o público não indígena possa se familiarizar com o idioma guarani, que é extremamente rico e simbólico.
Segundo Maynõ Guarani, coordenador indígena do projeto e editor de dois episódios, a realização do projeto foi importante para que o povo Guarani possa ter suporte para produzir seus próprios filmes, e por meio deles, contar a história do ponto de vista do povo indígena. “A websérie retrata um pouco do nosso cotidiano, que ajuda a desconstruir o estereótipo indígena. Também mostra a nossa cosmologia e nossa filosofia de vida, possibilitando a transmissão dos conhecimentos guarani para os nossos parentes e também para os não-indígenas nos conhecerem realmente”, afirma Maynõ Guarani.
Para o autor do projeto e também documentarista Ricardo Sá, o projeto é o resultado de uma longa caminhada. “A ideia nasceu quando Marcelo Guarani me convidou para realizar um piloto da série Reikwaapa, em 2012. O filme teve uma ótima recepção e demonstrou seu potencial, tanto internamente (na comunidade Guarani) quanto na sociedade não indígena. Depois disso, viabilizamos, em parceria com a produtora Raquel Lucena, uma oficina de realização audiovisual, orientada pelo cineasta indígena Alberto Alvares. E, por último, surgiu a oportunidade, por meio do edital da Lei Aldir Blanc, de consolidarmos nossa proposta, montando um núcleo de produção audiovisual dentro da aldeia. Sinto que, a partir de agora, este grupo de realizadores e realizadoras indígenas poderá seguir seu caminho, descobrir seu estilo, como já demonstram alguns dos episódios da série “Reikwaapa-Saberes Guarani”, e fazer do audiovisual uma expressão da cultura guarani, mas também um meio de vida”, afirma Ricardo Sá.
O projeto é uma realização da Interferências Filmes e conta com recursos da Lei Aldir Blanc, via Edital de Seleção de Projetos e Concessão de Prêmio Cultura Digital 2020, por intermédio da Secretaria da Cultura (Secult), direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, do Governo Federal.
Sobre os episódios:
Além de TANGARÁ (sobre o pássaro), serão exibidos TXÕDARO (sobre a dança dos guerreiros), PETYGWA MIRIM (sobre o cachimbo sagrado) e OREMA ROOTA (sobre a Terra Sem Males).
As exibições acontecerão semanalmente, sempre aos sábados, às 19 horas, no canal Reikwaapa no YouTube. (687) Reikwaapa? – YouTube
Agenda de exibições:
TANGARÁ – 31.07
TXÕDARO – 07.08
PETWGUA MIRIM – 14.08
OREMA ROOTA – 21.08
Acompanhe a divulgação do projeto pelas redes sociais:
(20+) Reikwaapa – Saberes Guarani | Facebook
Reikwaapa Saberes Guarani (@reikwaapa) • Fotos e vídeos do Instagram
Mais informações:
Ricardo Sá – produtor executivo: (27) 9998 0859
Mainõ Guarani – coordenador indígena: (27) 99846-1533
Babalorixá pai Ivo de Xambá é o novo Doutor Honoris Causa pela UFPE
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| Foto: Anderson Lima/UFPE |
Renascido das cinzas, Museu da Língua Portuguesa reabre com novidades
Há cinco anos, espaço sofreu com o incêndio que matou um bombeiro; restauro custou R$ 85 milhões

Reprodução/Facebook
Cerimônia oficial de inauguração será no sábado que vem; os ingressos poderão ser adquiridos exclusivamente pela internet
Após cinco anos do incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa, finalmente o espaço está pronto para reabrir as portas. O restauro minucioso da estrutura na Estação da Luz, marco da arquitetura paulistana, custou R$ 85 milhões. O espaço é um dos mais visitados do Brasil — mais de 4 milhões de pessoas visitaram o espaço até o incêndio, que matou um bombeiro. Apesar do acidente, a tecnologia foi capaz de preservar todo o conteúdo, que passou por um processo de atualização e será reexibido. Permanecem no acervo as principais atrações. Entre elas está a “Palavras Cruzadas”, que mostra as línguas que influenciaram o português no Brasil.
A curadora do museu, Isa Grinspum, celebra a conclusão da reforma. “Demos muito mais espaço para as questões do português falado em todo o planeta. Ela é uma língua planetária, falada por mais de 261 milhões de pessoas. Seja na África, na Ásia, na Europa ou nas Américas. Demos muito mais atenção para isso. Demos também mais atenção para diversidade regional dos falares no Brasil, que já era bastante abordado e agora está muito mais intensamente abordado.” O museu promete também proporcionar novas experiências com atrações inéditas, como por exemplo “Línguas do Mundo”, a qual mastros se espalham pelo hall com áudios em 23 idiomas — selecionados entre os mais de sete mil existentes.
Outra instalação nova é a “Falares”, que traz os diferentes sotaques e expressões do idioma no país. E a “Laços de Família”, uma espécie de árvore etimológica da língua portuguesa, luminosa e bidimensional. A reconstrução do prédio manteve o conceito original e adicionou novos espaços de exibição. Depois de um mergulho profundo na língua portuguesa, quem vier ao museu poderá conferir mais uma novidade: um espaço a céu aberto, com vista para o Parque da Luz e a torre do relógio, no coração de São Paulo. A estreia na exposição temporária é com a mostra “Língua Solta”, dos curadores Fabiana Moraes e Moacir do Anjos. Com 180 peças que vão desde mantos bordados por Arthur Bispo do Rosário até uma projeção de memes do coletivo Saquinho de Lixo — passando por cartazes de rua, cordéis, rótulos de cachaça e revestimento de muros.
Ganhando um novo significado com obras de artistas contemporâneos, Isa Grinspum explica que cada visitante vai receber um chaveiro touchscreen para que não seja necessário tocar nas telas interativas. “O visitante entre em um diálogo criativo com esses conteúdos todos. Ele não é um visitante passivo. A gente faz muitas provocações para que o visitante se envolva com os conteúdos. A ideia é que ele saia daqui com orgulho da língua portuguesa, que produziu coisas tão incríveis quanto uma canção do Chico Buarque, uma obra do Guimarães Rosa, o rap dos Racionais e um samba do Nelson Cavaquinho. Tudo isso está aqui.” A cerimônia oficial de inauguração será no sábado que vem. Os ingressos poderão ser adquiridos exclusivamente pela internet, com dia e hora marcados. A capacidade de público está restrita a 40 pessoas a cada 45 minutos.
*Com informações da repórter Caterina Achutti
Por Jovem Pan
Xinjiang garante diversidade de línguas faladas e escritas, diz livro branco
Beijing, 14 jul (Xinhua) — A diversidade de línguas faladas e escritas é garantida na Região Autônoma Uigur de Xinjiang, no noroeste da China, de acordo com um livro branco publicado pelo Departamento de Comunicação do Conselho de Estado na quarta-feira.
Ao mesmo tempo em que garante o direito de aprender e usar o padrão da língua chinesa falada e escrita, todos os grupos étnicos em Xinjiang têm a liberdade de usar e desenvolver suas próprias línguas faladas e escritas, de acordo com o livro branco intitulado “Respeitar e Proteger os Direitos de Todos os Grupos Étnicos em Xinjiang.”
Atualmente, mais de 10 línguas faladas e escritas são usadas entre os grupos étnicos em Xinjiang, segundo o livro branco.
Sik Lee Dennig quer salvar o cantonês e nem a saída de Stanford a vai afastar do caminho
A única professora de cantonês na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, não viu este ano o contrato renovado, alegadamente devido a cortes orçamentais decorrentes da pandemia. Racismo e a marginalização de línguas minoritárias são razões apontadas por Sik Lee Dennig para o fim do currículo que tem vindo a desenhar desde finais dos anos 1990. Em mãos, a professora de Hong Kong tem já um projecto para a salvaguarda do idioma.
Catarina Domingues
Devia chamar-se ‘Jasmim’, mas acabou registada como ‘Lótus’. Um erro da mãe, do funcionário da conservatória ou dos dois, que comunicavam em diferentes línguas: cantonês e xangainês. Sik Lee Dennig só descobriu vários anos mais tarde, ao resgatar o certificado de nascimento para os exames escolares, que a responsável pela sua graça era, afinal, a flor de lótus.
A académica, professora na Universidade de Stanford, foi sempre migrante, mesmo na terra onde nasceu. Natural de Hong Kong, com vida feita entre a comunidade do leste da China – a família é de Ningbo – cresceu a falar xangainês e mandarim. A língua dominante da então colónia britânica, o cantonês, chegou apenas com a instrução formal, nos primeiros anos de escolaridade, e o inglês, que começou a leccionar após o secundário, levou-a, em 1981, à migração efectiva.
Partiu para a América do Norte: no Canadá, licenciou-se pela Universidade de Alberta; nos Estados Unidos, completou o doutoramento em Educação e Linguística por Stanford, para depois descer no mapa até à Universidade East Carolina, em Greenville, onde deu aulas e se viu no âmago da “muito estereotipada” ‘American South’, região sudeste e centro-sul da nação. “Parecia que tinha ido para outro país”, conta. “Havia racismo? Sim, havia, mas esta experiência esmagadora foi positiva”. Pelo caminho, passou ainda pelo Japão, onde aprendeu ‘ikebana’, leccionou na Universidade de Tsukuba, em Ibaraki, e voltou a desconstruir barreiras e estereótipos – “existe a ideia de que os alunos japoneses são todos muito bem-comportados”.
A discriminação, nota, foi permanente neste percurso, que a levou de volta a Stanford, em 1997, onde criou o primeiro currículo formal de cantonês. A partir de Agosto, e após mais de duas décadas naquela universidade, Sik Lee Dennig abandona a instituição, alegadamente por cortes orçamentais decorrentes da pandemia.
Em entrevista ao PONTO FINAL, a professora fala sobre a importância da continuidade do ensino do cantonês, um idioma que considera marginalizado num momento de ascensão do mandarim. “O cérebro é perfeitamente capaz de lidar com mais do que uma língua”, nota Sik Lee, ela que optou por carregar até aos dias de hoje as duas versões do nome do meio no certificado de nascimento: numa chama-se ‘Lótus’, noutra ‘Jasmim’.
Stanford não renovou o seu contrato. Que justificação lhe foi dada?
No início, não entendi a razão, fiquei muito chocada e pensei que se devia aos cortes no orçamento. Tinha de se dividir o mal pelas aldeias e preparei-me para me suspenderem uma turma, mas, na verdade, nunca pensei que não renovassem o contrato. Sou a única professora [de cantonês] e a não renovação implica a eliminação do currículo. Mais tarde, a directora do Centro de Línguas disse-me que, dependendo do interesse dos alunos ou do dinheiro, talvez fosse possível oferecer um curso trimestral. Quando disse aos meus alunos, claro que ficaram abalados, tal como eu. Há aqui uma sensação de traição. Como se atrevem a virar-me as costas, eu que sou antiga aluna de Stanford, fiz aqui o meu doutoramento e dediquei 20 anos a construir este currículo? Não fui consultada, não houve debate nem com o coordenador de língua chinesa, que também ficou surpreendido.
Não acredita que seja apenas para salvar o orçamento?
Não, se fosse só por isso não se destinava apenas a certas línguas.
Nasceu a campanha ‘Save Cantonese at Stanford’, que defende a importância de línguas minoritárias como o cantonês, num momento de tensão política e ódio contra os asiáticos.
Diria que [uma das razões da decisão de Stanford] prende-se com racismo, consciente ou não consciente. Há anos que digo a uma das directoras associadas do Centro de Línguas que o cantonês, o mandarim, o xangainês e todos estes idiomas [chineses] são línguas regionais com uma história única e combinação de factores linguísticos ímpares. Não consegui fazer com que ela entendesse. Dou-lhe um exemplo: há dois ou três anos, na celebração do Dia Internacional da Língua Materna, preparámos no centro uma série de artigos para apresentar as nossas línguas. Fiquei contente porque o cantonês foi seleccionado. Estabeleceu-se, então, uma comissão para supervisionar estes grupos de línguas e a pessoa em causa pediu a um colega branco – que ensina uma língua europeia – para supervisionar a série de línguas asiáticas. Isto diz-nos muito sobre a mentalidade. Nós somos insignificantes, não somos importantes, basta observar as línguas onde houve cortes: cantonês, vietnamita, filipino. Eles vêem-nas como línguas marginais.






