Que língua é essa? Desvendando o português brasileiro

Para muitos estudiosos, a língua falada hoje no Brasil já é um idioma independente do português europeu.

Ouça o áudio:

O idioma falado no Brasil sofreu influência forte das línguas indígenas e africanas – Rovena Rosa/ Agência Brasil

quando você apaga a forma de uma pessoa falar, você está deslegitimando uma visão de mundo junto

Um idioma falado por mais de 211 milhões de pessoas. Cada uma a seu modo.

Diabé isso aí, mano? Tá doido, é? Deixe de arrumação!

Com seus diversos sotaques, ritmos e expressões, o português que a gente usa hoje no Brasil é muito diferente daquele que chegou com os primeiros colonizadores.

Para alguns linguistas, o português brasileiro e o europeu já podem ser considerados dois idiomas distintos. Um elemento importante nesse processo de mudança foi a interação com as línguas indígenas e africanas. Alguns traços dessas influências são bem perceptíveis, como explica o professor de linguística Marcos Bagno.

“O que chama a atenção para nós no português europeu é essa contração, esse desaparecimento das vogais. O que aconteceu lá, não aconteceu aqui. Mantivemos o ritmo silábico pausado que era característica do português antigo, e muito provavelmente, por conta da influência já mencionada das línguas africanas. Porque as línguas africanas que vieram para cá têm esse padrão silábico ta-ca-ta-ca-ta. Então isso influenciou”, afirma.

Ô, porqueira!

Das línguas indígenas, herdamos os sons anasalados, que são especialmente fortes no Nordeste. Se na região se fala “bãnana” e não “banana”, é por influência dos povos originários.

E o famoso “r” caipira da “porrrteira” tem origem semelhante, como conta o professor Bagno:

“O interessante é que quando a gente vai ao Paraguai, onde a população toda fala guarani, que é a língua irmã do tupi, lá a gente também encontra. Me lembro que estava no avião indo pro Paraguai, e a comissária de bordo paraguaia disse ‘puerta’ com r caipira”, salienta.

Mano do céu! Céloko, tá tirano, né?

Já o “s” chiado, bem marcante no sotaque carioca, vem do português europeu. Quando a Coroa se estabeleceu no Rio de Janeiro em 1808, com uma corte de cerca de 15 mil pessoas, esse jeito de falar acabou se espalhando e sendo adotado pelos moradores da cidade. Os imigrantes que chegaram ao Brasil no século XIX e começo do XX, vindos de países como Itália, Japão e Alemanha, também deixaram sua contribuição. Por exemplo: na cidade de São Paulo, as pessoas sentem “fóme” e não “fôme”, um traço herdado do italiano.

E as mudanças não param por aí: uma língua, qualquer que seja ela, está sempre em mutação. O idioma que a gente fala hoje no Brasil vai ser muito diferente daquele falado daqui a 100, 200 anos. E a língua também pode ser um espaço de disputa. Cecilia Farias, Pesquisadora do Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa, dá um exemplo que está acontecendo agora mesmo, e que vem gerando discórdia entre os brasileiros — ou brasileires.

“A gente vê toda uma disputa hoje com o uso do gênero neutro para uma linguagem inclusiva, para fugir do masculino genérico. As pessoas jovens têm uma abertura maior para esse caso específico. Então pode ser que em algum momento uma parte da população vá internalizando isso e ela vá entrando na nossa estrutura”, afirma.

Égua, mana, e eu sofrendo aqui com o preço do açaí!

Outras transformações acontecem pelo uso cotidiano. O professor Bagno aponta que há uma tendência a não marcar mais o plural em todas as palavras:

“Por um processo cognitivo chamado ‘economia linguística’, nós evitamos redundâncias. Então ao dizer ‘As meninas bonitas todas vieram’, você faz um gasto excessivo de marca de plural, porque se você disser ‘As menina bonita toda veio’, dá pra perceber que é mais de uma. Porque marcando só no artigo, o plural já está bonitinho ali”, explica.

Mas bah, tchê, tá frio de ranguear cusco!

No entanto, Bagno acredita que essa mudança não deve ser absorvida tão cedo pela norma padrão do idioma. E o motivo para isso está no preconceito linguístico. O professor aponta que esse tipo de discriminação é comum em sociedades centradas na língua escrita, mas fica ainda mais forte onde há muita desigualdade social. Para Cecilia Farias, é uma coisa que empobrece a cultura brasileira.

“Acaba funcionando sim como marcador de classe, como marcador de poder, como uma forma de você apagar aquela realidade. Se a gente considerar que cada língua e cada variante expressa o mundo de uma forma, traz pontos de vista sobre o mundo de uma forma, quando você apaga a forma de uma pessoa falar como não se fosse legítima, você está deslegitimando toda uma visão de mundo junto”, afirma.

Edição: Daniel Lamir.

Rádio Brasil de Fato

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