Povos indígenas

Terra Livre: Essa luta é de todos nós

Na Terra Brasilis todo dia era dia de índio e tudo que por aqui existia lhe pertencia.

Na Terra Brasilis todo dia era dia de índio e tudo que por aqui existia lhe pertencia. E eles eram tantos e de tantas etnias, que foram classificados pelas línguas que falavam. Segundo dados oficiais, eram mais de 3 milhões de indígenas distribuídos em mais de mil povos diferentes. Grande parte vivia no litoral brasileiro e, aproximadamente, 1 milhão no interior do país.

Hoje, no Brasil colonizado e colonizador – de que outra maneira poderíamos definir a imposição da presença do “branco” na cultura, território e no extermínio dos povos indígenas? – são cerca de 897 mil indígenas, 305 etnias e 274 línguas. A maioria deles está concentrada nas regiões Norte (Amazonas, principalmente) e Nordeste (Bahia). Mas estão presentes em todas as outras regiões do país.

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‘O Território’ relata luta do povo indígena Uru-Eu-Wau-Wau em Rondônia e ganha prêmios no Festival Sundance

‘O Território’, um documentário produzido com ajuda de indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, que mostra a história desse povo pela defesa de suas terras, venceu duas categorias no Festival Sundance de Cinema: Prêmio do Público e Prêmio Especial do Júri para Arte Documental.

O festival é conhecido por exibir o melhor do cinema independente e aconteceu entre os dias 20 e 30 de janeiro, nos Estados Unidos. Em 2022, por causa da propagação da variante ômicron, do novo coronavírus, todas as estreias foram realizadas de forma virtual.

O documentário foi primordialmente filmado em Rondônia, com participação de cineastas locais. Quem ajuda a traçar a linha narrativa é Bitaté, um jovem Uru-Eu-Wau-Wau, e a indigenista Ivaneide Bandeira, conhecida como “Neidinha”.

A partir deles, ‘O Território’ se apropria da arte e da linguagem audiovisual para denunciar desmatamentos, invasões de terras, queimadas e perseguições.

Foto: Reprodução/O Território

Bitaté também é fotógrafo, comunicador e foi uma das lideranças indígenas de Rondônia que esteve na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, na Escócia, no ano passado.

“É muito importante também mostrar como os indígenas estão ligados à arte, nas suas várias formas, como cinema, fotografia, música, nossas pinturas e mais”,

lembrou.

Bitaté, liderança indígena Uru-Eu-Wau-Wau. Foto: Reprodução/O Território

Já a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, onde Neidinha atua, pontuou que chegar ao festival é relevante para colocar em evidência para todo o planeta a luta diária dos povos indígenas da Amazônia.

“Feito com sentido de urgência, o documentário é um testemunho em tempo real do avanço sobre terras indígenas já homologadas, estimulado pelas declarações e pela omissão do presidente Jair Bolsonaro, opositor das demarcações e aliado incondicional do agronegócio”, descreve a associação.

Ivaneide Bandeira, conhecida como “Neidinha”. Foto: Reprodução/O Território

Terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau

O território Uru-Eu-Wau-Wau passa por pelo menos 12 dos 52 municípios de Rondônia. Ele abriga nove povos indígenas, incluindo povos isolados. Entre as principais ameaças apontadas estão: desmatamento, queimadas e ações de grileiros, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

Também há registros de ameaças às lideranças indígenas. Em 2019, por exemplo, Awapu e Juwi Uru-Eu-Wau-Wau denunciaram à Polícia Federal (PF), em Porto Velho, que foram ameaçados de morte por madeireiros.

Segundo as vítimas, homens os procuraram pela aldeia, mas não os encontraram, pois o casal estava na capital participando de um treinamento de pilotagem de drones. O curso fez parte de um projeto da ONG World Wide Fund for Nature (WWF) para ajudar na proteção de terras indígenas em Rondônia.

No ano seguinte Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi encontrado morto em um distrito de Jaru (RO). Ele trabalhava registrando e denunciando extrações ilegais de madeira dentro da aldeia, pois fazia parte do grupo de vigilância do povo indígena.

Ele foi morto durante a noite de 17 de abril de 2020 e o corpo foi encontrado na manhã seguinte, com sinais de lesão contundente na região do pescoço, que ocasionou uma hemorragia aguda.

Conforme um relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), publicado em 2021, em Rondônia, há anos a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau sofre com invasões, desmatamento, grilagem e queimadas. As ameaças, segundo apontado pelo relatório, acabam deixando o povo sem liberdade e segurança mesmo no seu próprio território.

*Por Ana Kézia Gomes 

PORTAL AMAZÔNIA, COM INFORMAÇÕES DO G1 RONDÔNIA

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Em Glasgow, as ativistas indígenas da Amazônia e da Colômbia também falaram sobre suas próprias soluções de energia limpa, que trazem cada vez mais autonomia aos povos indígenas na gestão de seus territórios.

Com os olhos marejados e voz firme, Juma Xipaia, liderança indígena do povo Xipaia do Médio Xingu, no Pará, iniciou o painel “Povos indígenas da Amazônia e mudanças climáticas: novas soluções energéticas dos territórios indígenas”, na COP26, ocorrido na tarde desta quinta-feira (04/11), em Glasgow, na Escócia, e transmitido virtualmente. A mistura de emoções que Juma expunha a todos que a ouviam vinha do peso de falar sobre os impactos da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte na vida dos povos indígenas do Xingu. “Vocês não conseguem imaginar quantas vezes eu já falei de Belo Monte e cada vez é dolorido”, afirmou a primeira mulher a se tornar cacica no Médio Xingu, no Pará.

“Falar de Belo Monte não é falar de desenvolvimento, de projetos, é reviver perdas e mortes. É isso que essa hidrelétrica representa para os povos indígenas: morte. Imagina se eu chegasse na casa de vocês e dissesse que vocês não teriam direito a nada e quando vocês voltassem já não existisse mais nada da sua história, nada do seu passado? Vocês iam sentir esse vazio que nós, povos indígenas, sentimos. Muitos agricultores, ao voltarem para as suas casas, já não tinham mais nada porque os tratores de Belo Monte tinham passado por cima”, complementou a jovem indígena.

Os impactos da UHE Belo Monte, construída em 2013, são denunciados diariamente pelos   povos indígenas do Xingu. Além disso, o empreendimento é alvo de dezenas de ações civis públicas do Ministério Público Federal (MPF), por conta do desrespeito ao direito da consulta livre, prévia e informada das populações indígenas e ribeirinhas afetadas pela obra. O MPF considerou que a obra resultou numa ação etnocida contra os povos indígenas da região.

Nesse sentido, Juma questionou categoricamente os impactos não só ambientais, mas sociais do que é chamado de “energia limpa”. “O rio é essencial, acredito que não só para nós povos indígenas, mas para o mundo. Belo Monte foi construída na Volta Grande do Xingu, onde há uma biodiversidade que vocês não conseguem imaginar e cortaram o rio, cortaram o Xingu ao meio, foi como se partissem o nosso coração. Que desenvolvimento é esse que só trouxe tristeza, divisão dos povos, conflitos dentro das comunidades, violência contra mulheres e crianças? Que negocia e vende, não somente os nossos direitos mas o nosso futuro”, questionou.

Durante o evento, as participantes deram exemplos de soluções sustentáveis para gerar energia que já são realidade em seus territórios | Foto: Uma gota no Oceano/Leticia Valverdes

O projeto iniciou os primeiros estudos há mais de três décadas, mas sem a consulta aos povos indígenas e ribeirinhos impactados, nos moldes do que determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), afirmou Juma em sua fala emocionada. “Tem aqueles que foram esquecidos, que não foram considerados impactados, os extrativistas e ribeirinhos. Estamos falando de um projeto de mais de 30 anos que abriu portas para a Belo Sun, uma mineradora canadense. Ela também não respeita a nossa existência e nunca fez consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas”, criticou.

Ao encaminhar sua fala para o final, a liderança indígena Xipaia alertou sobre a importância de ativistas de outros países olharem para seus governos que estão colaborando e financiando projetos como Belo Monte e projetos de mineração, como o da Belo Sun. “Isso não é desenvolvimento, não é energia limpa, isso é assassinato, é ecocidio.” Hoje a empresa responsável pela Belo Monte é o Consórcio Norte Energia, um grupo composto pelas companhias Eletronorte, Chesf, Gaia Energia e Participações, Queiroz Galvão, JMalucelli, Cetenco Engenharia, Mendes Júnior Trading Engenharia, Contern Construções e Comércio, Serveng-Civilsan e Galvão Engenharia.

Por fim, Juma convocou todos a defenderem os rios e as florestas. “Jamais vão nos silenciar, jamais vamos negociar os nossos direitos, os nossos futuros”, concluiu.

O caso de Belo Monte foi apenas um entre tantas outras denúncias sobre o impacto dos empreendimentos hidrelétricos trazidos no evento. Alessandra Korap, liderança das Munduruku do Médio Tapajós, não quer ver o filme de Belo Monte de novo. “O que aconteceu com Belo Monte que destruiu aldeias por causa das enchentes, nós estamos lutando para não acontecer com o nosso povo. Os rios não escolhem estado ou país, eles são como uma veia, se você barra um rio tem consequências”, alertou.

Os rios Juruena e Teles Pires, em Mato Grosso, afluentes do Tapajós, contam com inúmeros projetos hidrelétricos, que vão de Centrais Geradoras de Energia (CGHs), a Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), até as grandes usinas, as UHEs. “No Teles Pires foram construídas quatro usinas, Colíder, Sinop, São Manoel e Teles Pires. As duas últimas destruíram os lugares sagrados”, disse Alessandra.

Segundo ela, apenas no rio Jamanxim, importante afluente do rio Tapajós, já são quatro projetos de hidrelétricas . Ademais, por conta das intensas atividades garimpeiras na região, o rio já está morrendo. “O rio está branco, é transportado mercúrio na Amazônia e os rios estão morrendo.”

Atividades garimpeiras próximas a terras indígenas do povo Munduruku | Foto: Apresentação Alessandra Korap

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Discurso de brasileira na COP26 foi destaque no The New York Times

 

Foto de: Oli Scarff, da France-Presse/Getty Images

“Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores.

Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo.

Uma companheira disse: vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?

Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora!

Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza.

Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo.

Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis.

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.

Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.

Obrigada”

 

Leia mais sobre a repercussão do discurso de Txai Suruí Blog do Moisés Mendes

Programa ‘Voz Indígena’ estreia em plataforma audiovisual

Projeto apresenta vídeos, entrevistas e músicas pelo Youtube; iniciativa é uma realização do grupo de pesquisa Linguagens em Tradução (Leetra/UFSCar)

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Estreou neste domingo (4), às 21 horas, o programa “Voz Indígena – uma experiência cinematográfica”, que apresentará vídeos, entrevistas e músicas. A transmissão ocorre no Youtube da Secretaria Geral de Educação a Distância da Universidade Federal de São Carlos (SEaD/UFSCar). 

A ação, que integra a agenda cultural da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx) da UFSCar, é uma realização do grupo de pesquisa Linguagens em Tradução (Leetra), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob a coordenação da professora Maria Sílvia Cintra Martins, do Departamento de Letras (DL) da UFSCar, e conta com o apoio da Secretaria Geral de Educação a Distância (SEaD), todos da Universidade.

“O programa Voz Indígena já tem quatro anos de existência e vem sendo reconhecido pela forma leve com que divulga informações sobre línguas e culturas indígenas sempre junto com músicas indígenas, de modo geral de povos indígenas brasileiros”, conta Maria Sílvia Martins.

Entre os temas, os programas irão abordar o número de línguas e povos indígenas brasileiros, e sua situação de risco; educação escolar indígena; a lei 11.645/08 e a obrigatoriedade da temática indígena nas escolas brasileiras; dados geográficos, históricos e culturais sobre os povos indígenas; a relação no Brasil entre o indígena, o caboclo, o caiçara e o caipira, e muita música.

O grupo Leetra/UFSCar, responsável pela iniciativa, conta com três linhas que se relacionam com a questão indígena: Línguas Indígenas; Letramento e comunicação intercultural; e Estudos de Tradução e Poética, que aborda a tradução de cantos e narrativas indígenas.

Os programas serão transmitidos quinzenalmente em plataforma audiovisual, sendo que cada um terá duração de 45 minutos e ficará disponível após a transmissão. Mais informações podem ser solicitadas pelo e-mail grupo.leetra@gmail.com. Podcasts já transmitidos estão no site da UFSCar.

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