III Encontro de Políticas Linguísticas, Direito Linguístico e Justiça Social

09 a 12 de novembro de 2021

O evento virtual é organizado por grupo de pesquisa vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Linguística/UFSC, em parceria com docentes de outras instituições.
O evento contribui para a divulgação das discussões envolvendo políticas linguísticas em interface com os direitos linguísticos. Serão explorados quatro grandes temas: Direito linguístico: estado da arte; Direitos Linguísticos na América Latina; Protagonismo indígena; e Olhares do Sul Global. Busca-se contribuir com o debate envolvendo línguas, instituições, sociedade civil,  Direito e direitos.
O I e II Encontros ocorreram em  novembro de 2019 e 2020, respectivamente. O evento será transmitido pelo  Canal You Tube Políticas Linguísticas UFSC
As inscrições serão feitas no dia do evento, com link a ser disponibilizado no chat da transmissão.

 

Inscrições: a inscrição será feita no dia do evento. Será disponibilizado um link para a inscrição no chat do you tube, no decorrer da atividade ao vivo.

Discurso de brasileira na COP26 foi destaque no The New York Times

 

Foto de: Oli Scarff, da France-Presse/Getty Images

“Meu nome é Txai Suruí, eu tenho só 24, mas meu povo vive há pelo menos 6 mil anos na floresta Amazônica. Meu pai, o grande cacique Almir Suruí me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a Lua, o vento, os animais e as árvores.

Hoje o clima está esquentando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantações não florescem como antes. A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo.

Uma companheira disse: vamos continuar pensando que com pomadas e analgésicos os golpes de hoje se resolvem, embora saibamos que amanhã a ferida será maior e mais profunda?

Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais. Não é 2030 ou 2050, é agora!

Enquanto vocês estão fechando os olhos para a realidade, o guardião da floresta Ari Uru-Eu-Wau-Wau, meu amigo de infância, foi assassinado por proteger a natureza.

Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo.

Vamos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis; vamos acabar com a poluição das palavras vazias, e vamos lutar por um futuro e um presente habitáveis.

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.

Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.

Obrigada”

 

Leia mais sobre a repercussão do discurso de Txai Suruí Blog do Moisés Mendes

Venha conhecer o Mapa Interativo das Línguas Indígenas do estado do Pará!

Neste mapa, clicando no nome das línguas indígenas, você entra nas terras e nos territórios indígenas do estado do Pará.
Aqui, você pode conhecer um pouco sobre as 34 línguas indígenas faladas no estado do Pará: quais povos falam essas línguas, onde elas se localizam, a que família ou tronco linguístico elas pertencem. Como todos os territórios indígenas se localizam às margens dos rios, também disponibilizamos os nomes dos rios que banham estes territórios.
Financiado pelo Edital de Cultura Imaterial da Lei Aldir Blanc – FIDESA – SECULT – Secretaria Especial de Cultura – Ministério do Turismo.
Acesse o Mapa  Interativo das Línguas Indígenas do estado do Pará AQUI

NOVAS DATAS – Webinário Direitos Linguísticos e Direitos Humanos

É com alegria que informamos as novas datas das sessões do webnário “Direitos Linguísticos e Direito Humanos – por políticas compensatórias à repressão linguística no Brasil” , esperamos vocês  nos dias 11 de novembro e 18 de novembro às 16 horas.

Morre Jaider Esbell, a espinha dorsal da Bienal de São Paulo

A perda do artivista do povo Macuxi, Jaider Esbell, curador, escritor, educador, ativista, promotor cultural e pensador contemporâneo, deixou a classe artística perplexa. 

São Paulo (SP) – Morreu nesta terça-feira (02/11) em São Paulo, aos 42 anos, o artista, curador, escritor, educador, ativista, promotor cultural e pensador contemporâneo Jaider Esbell, indígena da etnia Macuxi cujo trabalho e pensamento emancipador está na espinha dorsal da 34ª Bienal de São Paulo, em curso no Parque do Ibirapuera até 5 de dezembro. São de Jaider, por exemplo, as gigantescas cobras infláveis de 17 metros de comprimento que boiam no Lago do Ibirapuera, na frente das quais o paulistano tem feito selfies nos últimos dias na capital paulista.

Embora ajude na identificação, é reducionismo identificá-lo só pelas cobras do lago, porque Jaider era um dos mais consistentes teóricos de arte indígena do País. Vivia o auge do reconhecimento como estudioso e como artista. Em outubro, duas de suas obras, os trabalhos Carta ao Velho Mundo (2018-2019) e Na Terra Sem Males (2021), foram anunciadas como novas aquisições do Centre Georges Pompidou (o famoso Beaubourg), de Paris. Oriundo da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde viveu até os 18 anos, Jaider nasceu em Normandia (RR), e seu corpo estava sendo trasladado para Roraima na noite desta terça-feira para ser enterrado no local onde nasceu.

Praticamente toda a histórica 34ª Bienal de São Paulo se assenta no pensamento e na articulação artística de Jaider Esbell, assim como a coletiva em curso no Museu de Arte Moderna (MAM), ali do lado. No MAM, Esbell foi o curador da mostra “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”, que reúne 34 artistas dos povos Baniwa, Guarani Mbya, Huni Kuin, Krenak, Karipuna, Lakota, Makuxi, Marubo, Pataxó, Patamona, Taurepang, Tapirapé, Tikmũ’ũn, Maxakali, Tukano, Wapichana, Xakriabá, Xirixana e Yanomami.

“Jaider Esbell era alguém generoso e comprometido, com uma capacidade impressionante de estabelecer vínculos e estimular encontros entre diferentes pessoas, comunidades e saberes”, declarou Jacopo Crivelli Visconti, curador geral da 34ª Bienal de São Paulo. “Sua falta será intensamente sentida. Inseparável de sua brilhante produção artística, ele deixa um legado de luta pelo reconhecimento do valor das culturas e da vida dos povos originários, que não pode arrefecer.”

A partir de 2013, quando passou a percorrer museus pela Europa, Jaider Esbell começou a desenvolver o conceito que chamou de “artevismo”, um ativismo contínuo que preconizava o resgate das motivações essenciais da arte indígena. Participou de diversas mostras internacionais (esteve em 10 países em 2019 ao lado de Daiara Tukano e Fernanda Kaingang) e passou a elaborar uma conceituação do sistema indígena que pressupõe a negação dos sistemas artísticos hegemônicos (europeus, notadamente) e das estratégias de colonização.

“Mais do que um teórico, acho que a questão da arte do Jaider é espiritual e ancestral, ele era neto de um makunaímî”, ponderou o curador, artista visual e gestor Turenko Beça, que era amigo de Jaider. Makunaímî, na etnia Makuxi, era o griô local, o contador de histórias. Jaider, que expôs um conjunto de 20 desenhos estruturados a partir das histórias do seu makunaímî, foi buscar na ancestralidade a força da sua atuação artística, do seu discurso e do posicionamento decolonial – o pensamento decolonial tem sido uma estratégia para dar voz e visibilidade aos povos historicamente subalternizados e oprimidos. “Quando ele expôs aqui, em 2018, eu estava dirigindo a Casa das Artes, ele não só fez a exposição como deu palestras, fez um ritual. Não tem como dissociar a arte dele da questão espiritual”, afirmou Beça.

A perda inesperada


“É uma perda inesperada porque era um artista que atuava num sistema ainda muito fechado e centralizado, que é o sistema de arte. E ele, de repente, com outros artistas indígenas, começou a crescer nesse espaço, não somente através do seu próprio trabalho, mas da presença política”, disse o curador Cristóvão Coutinho, que também foi amigo de Jaider. “E foi aproximando, eu acredito, a criação do próprio ser indígena, do universo indígena, da nossa vida na contemporaneidade. Eram aproximações muito recentes, e essa cosmogonia indígena e seu discurso são reflexões que vão ser feitas muito mais agora”.

Em entrevista à Amazônia Real, no dia da abertura oficial da 34ª Bienal de São Paulo, Jaider Esbell ponderou que o Brasil dos povos originários passou um processo doloroso de apagamento cultural, no qual “intelectuais indígenas foram rechaçados, seja na arte ou pensamento”, e que ele não via outro caminho senão o de enfrentar as doenças do Brasil e do mundo, hoje dominado pela necropolítica, por meio de um esforço de reatar os fios do ancestral e harmonioso relacionamento com a natureza e o ambiente.

“Na 34ª Bienal, sua contribuição se estendeu para muito além da apresentação de seus próprios trabalhos, envolvendo intensas trocas com os curadores e outros artistas da mostra, uma atuação curatorial histórica na exposição coletiva organizada em parceria entre a Bienal e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, e o desenvolvimento de ações na programação pública da Bienal em colaboração com outros artistas”, disse José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação Bienal, em nota pública. “Tinha uma visão muito aguda das urgências do nosso planeta, e sabia como ser um articulador de mundos”, afirmou o curador Paulo Miyada.

Jaider Esbell deixa grandes obras que sintetizam seu pensamento e estão em exibição na Bienal de São Paulo. A primeira, Terreiro de Makunaima – mitos, lendas e estórias em vivências (2010), foi definida pelo artista como “pedagógica”. São os tais desenhos que reproduzem interpretações do universo infantil face à contação de histórias do avô Makunaímî. Das 20 ilustrações, somente uma é assinada por Esbell, as demais são como visões escorridas das histórias que recolheu. Já a série A Guerra dos Kanaimés (2019-2020) é um conjunto de telas impressionante que Jaider produziu sob comissionamento já para o contexto da Bienal, criando cenas alegóricas a partir do mito dos Kanaimés (descritos como espíritos fatais capazes de provocar a morte de quem os encontra).

Jaider dizia, numa conversa com a reportagem da Amazônia Real, que o colonizador se apropriou de quase tudo que o indígena tinha, condicionando as culturas originárias a repetir padrões da religião, da moral e da arte europeias. “Agora, querem se apropriar também do que não entendem: o mistério, a magia”, considera. Questões como o sagrado, a cosmogonia, a mitologia, a comunhão ambiental, para a compreensão dos povos indígenas, não se prestam a um tipo de apreciação tradicional, nem à rotulação costumeira”. É nesse ponto que ele articulou sua estratégia de resistência. “O sistema de arte indígena não tem nada a ver com o sistema dos europeus, que nos foi imposto durante e depois da colonização”.

As expressões pictóricas do indígena contemporâneo, para Jaider, se tornam parte de uma ação de resgate. “Tudo tem espírito, por assim dizer, e nós estamos pobres nisso”, escreveu, num dos textos de maior radicalidade da exposição, escrito para o catálogo da Bienal. “Sabíamos, pois sábios éramos. Amávamo-nos sem nem mandar ou exigir, pois era essencial o dito natural. Enquanto dentro, não enxergávamos o fora, embora suspeitássemos de sua força; seguíamos e cá estamos, à frente. Uns de nós sempre trarão reflexos, complexos; é como passam. Atravessamentos constantes, instantes, eternidades.”

Sarcástico e de uma sinceridade quase rude, ele ironizava quem via “como figura psicodélica” o indígena que milita pela retomada do inconsciente ou os críticos que relacionaram sua obra como algo excêntrico, marcado pelo uso de “pozinhos ou cogumelozinhos ou uma ervinha”, como alfinetou. “Reúno no inconsciente uma tribo de avatares, seres mágicos sem descrição. Jogando redes ao léu, são polidirecionais. Elas tensionam, e pegamos peixes grandes já sem iscas ou armadilhas”, teorizou. “Eles estão vivos, debatem-se em retirada, mas não deveriam. A expertise do pescador trabalha além. Quando logo se completa o rito é o moquém, a paisagem. Moquém – tratar com fogo lento o alimento coletivo, na caçada, para levar para casa. Jornada que esquecemos quando, delongando quereres, edificamos megalópoles”, escreveu, também no texto para o catálogo da Bienal.

A postura de Jaider sempre foi a de um artista no front, numa postura de combate. “Não vá escrever besteira, hein? Procure os vídeos, eu tenho falado muito sobre essas questões”, avisou, ao terminar a entrevista. Também pediu para que a reportagem da Amazônia Real não escrevesse que ele tinha acabado de entregar uma carta à curadoria geral da exposição pedindo que fosse aumentada a presença indígena na mostra, que, para além do reforço da representação artística, que fossem trazidos indígenas para visitá-la. “Pode parecer intriga, e eu não quero que as coisas fiquem no âmbito da intriga, eu quero olho no olho.”

“Não tem começo, nem fim”

Jaider na 34ª Bienal de São Paulo (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A comunidade artística indígena estava particularmente triste na noite desta terça-feira, Dia de Finados. “Querido, o dia está pesado demais, estamos muito arrasados. Eu estou sem condições de falar alguma coisa, espero que compreenda”, disse Denilson Baniwa, artista brasileiro, curador, designer, ilustrador, comunicador e ativista. “Fica a memória de um artista dedicado à arte, defesa dos direitos indígenas, valorização da cultura e dos saberes ancestrais”, escreveu a deputada federal Joênia Wapichana no Instagram. Sonia Guajajara escreveu, citando as cobras do Lago do Ibirapuera: “Chamada ‘Entidades’, a obra representa o ser fantástico îkiimi, que atravessa vários mundos e não tem começo e nem fim”.

“A morte dele grande símbolo de resistência”, disse o xamã Bu’ú Kennedy, do povo Tukano. “As sementes que ele ajudou semear, dando oportunidade para parentes, eles e elas vão continuar. A arte, acredito, ele foi grande espelho, exemplo que arte é caminho para levar ao conhecimento da sociedade a nossa voz, nossa cultura, através da arte.”

Galeria Jaider Esbell, de Boa Vista (RR), comentou a perda irreparável e solicitou que “nossa dor e recolhimento sejam respeitados”. O Conselho Indígena de Roraima (CIR), também em nota, lamentou a perda de Jaider Esbell, lembrando que ele deixa “um legado de resistência, luta e firme posicionamento. Suas pinturas envolventes, plasticidade e sua escrita manifestavam o que o povo indígena tem de melhor, cultura”. Ainda na nota, o CIR lembra que o artivista vai de encontro à Vovó Bernaldina, sua mãe. A mestra da cultura Macuxi Bernaldina José Pedro foi uma das líderes pela demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e morreu de Covid-19 em novembro do ano passado.

“É triste porque a gente sabe que era jovem, ou então era isso mesmo que tinha que ser feito. A morte dele também pode ser encarada como um complemento de uma trajetória forte e abrangente, mas de alguma forma também como uma expressão também particular de um artista que estava envolvido em muitos lugares e esse conceito da arte indígena contemporânea ficou presente a partir dele”, afirmou o curador Cristóvão Coutinho.

Documentário “Entre rios e palavras: as línguas indígenas no Pará em 2021”

Este documentário apresenta um panorama das línguas indígenas faladas no Estado do Pará em 2021. Pesquisadores indígenas e não-indígenas debatem sobre os processos históricos de silenciamento e de resistência que envolvem o governo das línguas na região e no Brasil. Nesta abordagem, a língua é tomada não apenas como uma estrutura linguística, mas sim como uma prática cultural fundamental para as cosmologias indígenas, compreendida como a tradução de suas alegrias, de suas dores e de suas transformações históricas.

Muito antes da colonização, as sociedades indígenas já se organizavam pelos leitos dos rios da Amazônia e eles representavam os espaços privilegiados por onde circulavam as línguas indígenas. Hoje, continuam espraiadas pelos rios da região, se apropriando e ao mesmo tempo estabelecendo estratégias de defesa em relação às palavras estrangeiras, que para cá trouxeram novas formas de vida e de morte.

Assista no canal no YOUTUBE do GEDAI – Grupo de Estudo Mediações, Discursos e Sociedades Amazônicas

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