Sebastião Salgado na Amazônia

IanomâmisAventureiros do ouro e seus rastros nos rios e na selva põem em risco o maior grupo indígena de pouco contato com os brancos, que há mil anos vive em seu shangri-lá entre picos, vales e cachoeiras, no extremo norte do Brasil

As índias Cecilia e Edna; os ianomâmis têm tabus relacionados a nomes: uma pessoa jamais é tratada por seu nome indígena, embora os outros possam usá-lo para se referir a ela, mas não na sua frente. Quando pequena, a criança é chamada pelos pais de “filho” ou “filha” (ôse). Outros membros da família lhe dão um apelido, pelo qual será conhecida na comunidade. Para se comunicar com não índios, o grupo passou a adotar nomes brancos.

Garimpeiros clandestinos ameaçam paraíso ianomâmi

Leão Serva

BOA VISTAO paraíso e o inferno se revelam diante de quem percorre o longo caminho até as comunidades na Terra Indígena Yanomami, no extremo norte do país. Na fronteira do Brasil com a Venezuela, nas mais altas serras do território brasileiro, reside há cerca de mil anos o maior grupo indígena de pouco contato do planeta, hoje com 35 mil pessoas.

A distância entre a área habitada pelos índios e a capital de Roraima, Boa Vista, a cidade grande mais próxima, é marcada por uma floresta alta que se estende pelos vales entre montanhas e tepuis (formações antigas parecidas com chapadas). Rios descem das terras altas em corredeiras, com muitas cachoeiras.

O xamã conhecido como André evoca espíritos auxiliares para celebração na aldeia de Piaú, que fica na divisa de Roraima com o Amazonas

 

O barco ou o avião se torna um ponto miúdo entre grandes montanhas como numa espécie de shangri-lá em que a neve do Himalaia tivesse sido pintada de verde. A paisagem é impressionante até para exploradores experientes como o alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924), que morreu no Brasil em uma das expedições à região. Seus relatos inspiraram Mário de Andrade, que se baseou em um mito local da formação do mundo para situar ali, às margens do rio Uraricoera, o nascimento de Macunaíma, seu herói sem nenhum caráter.

Na mesma jornada, porém, o viajante que se aproxima das comunidades ianomâmis e ye’kwanas habitantes da área se defronta com o inferno encarnado em grandes feridas abertas na selva por garimpeiros. A destruição é imensa. Mesmo as áreas que foram abandonadas depois da exploração permanecem sem cobertura, estéreis como ilhas de deserto no meio da floresta. O garimpo acontece nos vales, nas beiras de rio ou nas planícies de aluvião.

Nos últimos três anos, empresas de Roraima exportaram 770 quilos de ouro para Índia e Emirados Árabes, segundo registros oficiais. Esse ouro foi produzido ilegalmente: não existe uma só mina registrada no estado. Todo o metal é explorado em garimpos clandestinos dentro da Terra Indígena Yanomami.

Uma quantidade maior, 1.200 quilos, foi comercializada em contrabando, segundo a Polícia Federal.

No último dia 6, em operação de combate à mineração criminosa denominada Hespérides, a PF prendeu em Boa Vista 18 pessoas envolvidas em contrabando de ouro e apreendeu com elas R$ 1,5 milhão em espécie, mais de cem quilos de ouro, 70 quilos de prata e 22 carros de luxo.

Os registros da exportação de ouro produzido em Roraima nos controles do Ministério da Economia começaram em 2017. Há várias razões possíveis para que as empresas locais tenham passado a documentar a venda de um produto ilegal. A investigação policial aponta que, como os órgãos públicos brasileiros não exigem atestados de origem, o registro “esquenta” o ouro, que então é exportado por quase o dobro do preço no mercado informal.

Habitantes do alto das montanhas, protegidos pelo acesso difícil às cordilheiras, os índios ianomâmis ficaram preservados do assédio dos colonizadores espanhóis, de um lado, e dos portugueses, do outro, por todo o período colonial e por mais um século após as independências de Venezuela e Brasil.

Person realiza tratamento xamânico em maloca

 

Ao longo dos séculos 19 e 20, os indígenas começaram a descer dos cumes e ocupar os vales. Os primeiros encontros com brancos documentados ocorreram apenas no final do século 19 e foram pouco frequentes até meados do século passado.

Assim, os ianomâmis puderam chegar à segunda metade do século 20 como um grupo numeroso e quase sem contato com a sociedade não indígena.

Essa vantagem se tornou desvantagem quando o intercâmbio se intensificou entre os anos 1950 e 1970, depois que a ditadura militar decidiu passar estradas por aquelas florestas quase virgens.

Despreparados para resistir às enfermidades dos brancos, os índios morriam como moscas ao contrair gripe, malária, sarampo e doenças sexualmente transmissíveis.

Nos anos 1980, cerca de 15% da população ianomâmi no Brasil morreu de doenças provocadas pela invasão de 40 mil garimpeiros (cinco vezes mais que a população indígena instalada na área invadida).

Quando milhares de mineradores ilegais foram expulsos da área pelo governo federal, em 1990 e 1991 (leia mais ao lado), os poucos que ficaram se tornaram mais agressivos.

Em 1993, uma comunidade ianomâmi foi vítima do único caso classificado como genocídio em toda a história do Brasil, que resultou na condenação dos acusados a 20 anos de prisão. Passado um quarto de século, o único vivo entre os condenados pela chacina atua novamente como empresário da mineração ilegal, na nova invasão que voltou a degradar a saúde dessa etnia.

Céu e inferno marcaram o ano do líder ianomâmi Davi Kopenawa. Já em janeiro ele se preocupava com as ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e as medidas tomadas logo após a sua posse, como a retirada da Funai da alçada do Ministério da Justiça e a discussão sobre a municipalização da Secretaria de Saúde Indígena.

Mas ao final do período, Kopenawa ganhou o prêmio Right Livelihood, um reconhecimento internacional por seu trabalho de dedicação à defesa do meio ambiente.

Kopenawa acompanhou Sebastião Salgado à comunidade ianomâmi de Piaú, que fica no estado do Amazonas, no sudoeste da terra indígena.

A própria expedição do fotógrafo foi marcada por momentos de epifania e agonia: a festa que estava sendo documentada, com índios de outras comunidades, transmutou-se em choro coletivo quando chegou a notícia de que um membro de outra aldeia fora morto em uma emboscada.

Após a chegada do corpo aconteceu um ritual fúnebre em que se promoveu o desaparecimento total do morto, de forma a atender a tradição ianomâmi de não guardar qualquer rastro da pessoa.

Depois de chorar a pessoa morta, de queimar seu corpo e pilar seus ossos para que virem pó, os índios enterram as cinzas por um ano ou mais. Passado esse período, uma festa será feita, durante a qual as cinzas serão distribuídas como parte de um banquete, para serem consumidas por todos os presentes. E a vida segue.

 

Leida, Ivanete, Roseane e Heitor em pesca com timbó (nome genérico para venenos de plantas que ajudam a atordoar os peixes), enquanto aguardavam os animais começarem a boiar

 

Mineração está muito próxima de um grupo isolado

A mineração ilegal voltou à Terra Indígena Yanomami 20 anos após a expulsão de garimpeiros pelo governo Fernando Collor (1990-1992). A atividade nunca desapareceu totalmente, mas, até o fim da década passada, o número de invasores se manteve em torno de mil. Hoje, são 20 mil, segundo entidades indígenas.

A crise mundial em 2008 fez disparar o preço do ouro. No mesmo período, o real sofreu desvalorização em relação ao dólar. Houve hipervalorização do ouro em real, potencializando as receitas dos garimpos.

Isso atraiu nova onda de invasão, que coincidiu com um menor empenho pelos direitos indígenas durante a gestão Dilma Rousseff, agravado nos períodos de Michel Temer e Bolsonaro. Entre 2013 e 2015, a Funai criou e logo desativou, por falta de verba, bases de vigilância.

Os principais rios usados pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami são o Uraricoera e o Mucajaí. Na bacia deste fica a Serra da Estrutura, por onde perambula um grupo de índios isolados. De todas as ameaças aos ianomâmis, essa é a mais dramática. Os garimpos estão muito perto das malocas. O rio Uraricoera é a principal porta de entrada dos garimpeiros, que o poluíram com mercúrio. A atividade tornou a pesca impossível.

Ao sobrevoar a comunidade de Waikás, em uma expedição à Terra Indígena Yanomami, Sebastião Salgado se chocou ao ver a dimensão da área devastada pelo garimpo Tatuzão do Mutum, um quilômetro rio acima de onde moram os índios. Ali há perto de mil pessoas, entre garimpeiros e prestadores de serviço, morando em barracas de lona, em um acampamento já transformado em vila.

Em 2018, houve a notícia de confronto entre garimpeiros e índios do grupo isolado, ocorrido em maio. Invasores teriam sido flagrados por índios ao tentar furtar comida de uma roça; atacados com flechas, fugiram, mas organizaram um revide. No confronto, dois índios teriam morrido e um garimpeiro, desaparecido. A informação motivou uma ida do Exército à antiga base de vigilância da Funai. Em agosto de 2018, os militares acharam sinais de que a base havia sido usada por garimpeiros, mas ela estava vazia.

Eles foram vítimas do único caso de genocídio reconhecido no país

Uma expedição de vingança contra ianomâmis resultou no único caso de genocídio reconhecido pela Justiça brasileira em toda a história.

No Massacre de Haximu, em 1993, todos os que estavam na aldeia com esse nome foram mortos por garimpeiros. Eram 16, entre mulheres, idosos, quatro crianças e um bebê, mortos a tiros e retalhados com facão.

Havia uma balsa do garimpo operando perto dessa comunidade, com 80 índios de pouco contato. Os indígenas costumavam pedir bens em pagamento pela invasão das terras. Alguns deles teriam ficado descontentes com o que receberam, discutido e atacado garimpeiros.

As índias Ivanete e Roseane durante expedição para pesca com timbó

 

Em resposta, chefes do garimpo organizaram um ataque que pretendia eliminar toda a comunidade, mas só encontraram velhos, mulheres e crianças. Os jovens tinham deixado o local pouco antes. O crime teve repercussão internacional.

O Ministério Público Federal acusou os responsáveis por genocídio. Os cinco foram condenados a 20 anos em primeira instância em 1997, entre eles o líder, Pedro Emiliano Garcia.

Em 1993, Garcia era dono de balsas. Na época, a técnica mais usada para mineração era submeter a encosta do rio a jatos d’água, fazendo com que ela se tornasse uma lama densa, que em seguida era sugada por uma draga e peneirada. O resultado é que os rios perdem suas margens e suas águas ficam sujas.

A sentença foi confirmada pelo STF em 2000. Em 2011, Garcia voltou a atuar como empresário de mineração na área dos ianomâmis. Apesar da gravidade do crime, a 3ª Vara Criminal de Roraima deu por cumprida a pena em janeiro daquele ano e o condenado foi solto. Dos cinco, só ele está vivo, segundo a polícia.

Garcia passou de dono de balsa a fornecedor de produtos e serviços a garimpeiros, operando aeronaves entre Boa Vista e a área ianomâmi. Foi detido algumas vezes por ligação com o garimpo entre 2012 e 2018.

Ditadura militar queria instalar uma nova Serra Pelada em Roraima

O sucesso do Major Curió, comandante da exploração de ouro em Serra Pelada que transformou os milhares de garimpeiros em força popular a favor do regime militar, nos anos 1980, entusiasmou militares que queriam ocupar a chamada Calha Norte da Amazônia para afastar o fantasma das invasões estrangeiras e atenuar a porosidade das fronteiras brasileiras.

No início do governo José Sarney (1985-1989), militares ligados ao seu gabinete decidiram fomentar o garimpo de ouro em Roraima.

A partir de estudos dos anos 1970 que apontaram a presença de ouro na região de Carajás (Serra Pelada), uma conciliação firmada entre militares liderados pelo general Rubens Bayma Denys (que era chefe da Casa Militar de Sarney), Romero Jucá (presidente da Funai e depois nomeado governador de Roraima), empresários de mineração e garimpeiros desenhou o plano que, nos anos seguintes, se materializaria à medida que caía a produção de Serra Pelada.

A ideia foi esquentada pela frustração de militares com os rumos dos debates da Constituinte, que retiraram das Forças Armadas a competência para agir em assuntos de ordem interna nas áreas próximas à fronteira. O raciocínio era que se o Exército não podia mais ocupar as fronteiras, os garimpeiros serviriam de tropa.

Com o esgotamento de Serra Pelada, milhares desses mineradores se mandaram para Roraima. Em 1989, a atual Terra Indígena Yanomami já reunia 40 mil pessoas.

Os planos, que foram preparados no fim da ditadura militar e implantados no início da redemocratização, foram vazados pelo governo de Ferando Collor, que tentava isolar a resistência da linha dura dos militares ao reconhecimento dos direitos dos índios contra os interesses econômicos do garimpo.

Na época, os militares se dividiam entre aqueles que queriam a ocupação de Roraima e os que se opunham ao projeto, cujo porta-voz era Jarbas Passarinho, coronel e senador constituinte, responsável pela redação do capítulo de direitos indígenas da Constituição.

Na posição de ministro da Justiça de Collor, Passarinho assinou a homologação da Terra Indígena Yanomami, criando a reserva e expulsando os garimpeiros.

Funai diz que combate a prática criminosa na terra indígena

A atual gestão da Funai (Fundação Nacional do Índio) informa que reconhece a presença de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami e afirma que vem atuando, em parceria com outros órgãos dos governos federal e estadual, em ações de fiscalização, proteção e combate à prática criminosa.

“Este ano, uma grande ação de desmantelamento do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami chegou à etapa final no mês de outubro de 2019. A Operação Walopali/Curare XI abordou mais de 30 focos de garimpo, realizou o flagrante de diversos ilícitos na TI [Terra Indígena] e retirou cerca de 300 invasores durante 12 dias de duração”.

Participaram, conforme a Funai, cerca de 75 agentes do órgão, Exército Brasileiro, Polícia Federal, Ibama, ICMBio, Divisão para Erradicação do Trabalho Escravo [do Ministério da Economia], Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Roraima (Femarh) e Polícia Civil de Roraima. Eles se dividiram em três frentes de atuação na região ocidental da Terra Indígena e na Floresta Nacional de Roraima, “ao longo das calhas dos rios Mucajaí e Couto Magalhães, um dos principais focos de garimpo ilegal”.

Além disso, segue a nota, “a Funai atua permanentemente no local por meio da base de proteção etnoambiental Walopali, que vem contando com o apoio do Exército Brasileiro”.

xamã conhecido como André evoca espíritos auxiliares para celebração na aldeia de Piaú, que fica na divisa de Roraima com o Amazonas

 

Valéria, Taiane, Ilma e Leonícia dançam na festa de recepção a visitante da aldeia de Piaú, na Terra Indígena Yanomami

Festa na maloca tem que ter rap e muita comida

A expedição de Sebastião Salgado à comunidade de Piaú, no sudoeste da Terra Indígena Yanomami, no estado do Amazonas, foi intermediada pelo líder indígena Davi Kopenawa. Lá vivem cerca de 150 pessoas, todas falantes da língua yanomam.

Nossa visita, em janeiro de 2019, coincidiu com uma festa funerária, em homenagem a um homem morto meses antes. A comemoração é o final catártico de um período de luto, momento de reunião de vizinhos e parentes de outros grupos para celebrar a vida.

Uma comunidade ianomâmi, geralmente, mora numa única casa, construída como um estádio de futebol: a estrutura circular deixa o miolo, onde ocorrem atividades coletivas, livre. Entre a parede externa e o vão, são cerca de dez metros, onde vivem as famílias, separadas umas das outras.

Indígena conhecido como Gilberto realiza tratamento xamânico

 

Os 150 moradores de Piaú ocupam uma metade do círculo da maloca. A outra é reservada para conversas com visitantes e hospedagem de famílias que vêm para as grandes festas. Foi num desses espaços livres que eles fizeram o rito fúnebre do morto durante a expedição de Sebastião Salgado.

Os ianomâmis são muito eloquentes e, como é comum nas comunidades indígenas, não são hierárquicos. Todos têm direito a opinião e a expressam democraticamente. No dia em que chegamos, várias pessoas vieram ao nosso encontro, ainda na pista de pouso onde o avião acabara de nos deixar.

Logo, começaram a discutir o protocolo da recepção. Alguns propunham que os homens da comunidade nos acompanhassem até dentro de sua casa, onde as mulheres estariam nos esperando; outros preferiam o inverso.

A discussão, toda em ianomâmi, prosperou longamente. Alguém que não conhecesse seus costumes poderia dizer que estavam numa briga, beirando o rompimento. Mas eles apenas se divertiam em discutir. Como não chegavam a um acordo, Davi Kopenawa acabou arbitrando: as mulheres viriam até nós, e os homens nos esperariam na maloca, cantando. Alguns foram embora com cara de ofendidos por não ter vencido a discussão.

À medida que os visitantes chegam, são levados para uma longa recepção-ritual, no meio da grande casa circular, com toda a comunidade. Os visitantes se apresentam e dizem que vieram ali como amigos para celebrar e confraternizar.

Já a chegada dos parentes (os índios se chamam assim mutuamente) de comunidades distantes é mais barulhenta. Quando estão perto da casa dos anfitriões, os visitantes enviam um emissário para anunciar a chegada. Um representante da aldeia que recebe vai ao seu encontro e o acompanha até o acampamento dos visitantes, onde dorme com eles.

Na manhã seguinte, vão todos paramentados para o encontro, com pinturas de guerra. Eles se aproximam da aldeia e, num ritual animado que simula ameaça, “invadem” a casa grande e dançam por toda a construção circular, em uma coreografia que parece uma corrida.

Sentado numa rede, o índio Robson segura aves

 

Os guerreiros retesam os arcos com flechas e apontam para os donos da casa, cantam, fazem caretas e correm até a próxima família. Ao final, todos são recebidos pelos anfitriões e vão para o meio do pátio central da maloca.

Ali, os líderes farão seu “duelo” de canto, conduzido pelo chefe local e respondido pelo dos visitantes. É o tal rap ianomâmi. Eles descrevem a história do relacionamento das duas aldeias e da viagem e contam acontecimentos recentes nas duas casas e agradecem pela recepção.

As palavras são disparadas rapidamente e devem ser encadeadas por rimas, em grande velocidade. Há um caráter de retórica especial, que revela a habilidade do cantador-contador, como explica o tradutor da equipe de Salgado, o geógrafo Estêvão Senra, 34, que trabalha há sete anos com ianomâmis.

Maior defeito de um anfitrião é ser sovina com seus convidados

Para um ianomâmi, o maior valor da convivência é a generosidade; o pior de tudo na vida é ser sovina. Um exemplo disso é explicado por Davi Kopenawa: “Quando um ianomâmi caça, ele não come o que caçou, ele passa tudo para sua família, os filhos, a mulher e os pais”.

Ao organizar uma festa, a comunidade se prepara várias semanas . São feitas caçadas, e as presas são penduradas no teto da maloca, sobre um pequeno fogareiro, para moquear. O moquém é uma técnica que fica entre o assado no fogo e a defumação: a presa é pendurada sobre as brasas da fogueira, a uma altura suficiente para secar sua carne e assar ligeiramente; a fumaça vai cobrir totalmente a carcaça, deixando-a preta como o próprio carvão. A carne assim pode ser preservada por um longo período.

Emília, Doralice e Danayara dançam para convidados na aldeia ianomâmi

 

As festas são marcadas para coincidir com a época da colheita de frutas, como a pupunha e a banana. Dias antes do evento, elas são colhidas para o preparo de um suco grosso como uma sopa, que fica armazenado em grandes recipientes. Em nossa visita, essa bebida era um mingau de banana, delicioso e abundante.

Há muito mais comida do que seria necessário. A festa não é uma questão de alimentação, mas um rito de afirmação da confraternização. As pessoas se empanturram até a náusea, em um agradecimento ostensivo à generosidade dos anfitriões.

Também são processadas muitas dezenas de quilos de mandioca, cuja massa dará origem a centenas de discos de beiju, que, assados, ficam parecendo pizzas brancas e duras, como biscoitos. Eles serão empilhados e entregues às famílias dos visitantes para serem levados e comidos na longa viagem de volta para casa. Cada adulto leva um disco, mais uma fração para cada criança.

As caças mais cobiçadas pelos ianomâmis são macaco, anta e porcos selvagens. Na casa principal, são penduradas diversas carcaças desses bichos moqueados. Quando for ser consumida, a carne poderá ser cozida na água, reidratando, ou mascada longamente, até recuperar sua textura original.

Boa parte do grande estoque de carne moqueada que víamos ao chegar se esgotou durante as festas e o rito fúnebre. O restante foi distribuído aos visitantes para que levassem em sua viagem de volta. A caça envolve também um outro tabu, frequente em culturas indígenas: “Quando um índio caça uma fêmea que tem filhotes pequenos, o caçador leva a cria como animal de estimação, como um ‘membro da família’, por assim dizer. Nunca essa cria vai ser vista como uma comida, como acontece com uma galinha ou um porco criado por uma família de não indígenas”, conta Davi Kopenawa.

Fogo dentro das casas faz visitante chorar e índio rir

O fato de morar em terras altas e frias faz com que os ianomâmis vivam em torno de fogareiros. Eles dormem junto a um fogo, que fica aceso o dia todo. Por isso, o teto das casas é enegrecido e há no ar um permanente fumacê.

Na nossa visita, enquanto tomava o mingau de banana, senti os olhos arderem intensamente. Mesmo a casa sendo aberta para o lado de dentro, a fumaça faz os olhos desacostumados lacrimejarem muito. Tive que me afastar e lavar os olhos com água para sentir certo alívio. Acostumados a vida toda ao ambiente esfumaçado, os ianomâmis sabem que os forasteiros não resistem, e eles morrem de rir observando o choro dos visitantes.

Caça moqueada dentro da maloca para ser distribuída aos visitantes

 

Rastros da existência dos mortos devem ser apagados

No sétimo dia de nossa visita a Piaú, a notícia de um assassinato caiu como uma bomba na comunidade.

Nessa data, havíamos saído cedo com uma família indígena para acompanhar a pesca com timbó (nome genérico para venenos de plantas que ajudam a atordoar os peixes) num riacho a cerca de cinco quilômetros da maloca.

Calmamente, ao chegar ao rio represado pela seca, o pai amassou as folhas da planta e deixou seu sumo impregnar as poças d’água. Em cerca de 30 minutos, os peixinhos começaram a boiar, se debatendo, prontos para serem colhidos.

Voltamos para a casa comunitária perto de 14h30. O sistema de rádio da Funai informava então que um índio de Piaú havia sido assassinado numa emboscada na comunidade Xiroxiro, bem perto da fronteira com a Venezuela. O homem havia se mudado recentemente para lá buscando um novo casamento.

Para se juntar a alguém, ianomâmis adotam como costume o chamado “parentesco dravidiano”, com uniões entre primos cruzados. Por essa regra, uma jovem deve se casar com o filho da irmã do pai ou com o filho do irmão da mãe, e um rapaz deve se casar com a filha da irmã do pai ou com a filha do irmão da mãe.

Um homem pode “herdar” a esposa de um irmão que morre, mas só se a mulher consentir. ianomâmis podem ter até duas mulheres, conta o líder Davi Kopenawa.

Índios dentro da maloca; no primeiro plano, Cessina deitada na rede

 

Depois do crime, os assassinos, identificados como venezuelanos, correram para o país vizinho. Os dois matadores seriam ligados a garimpeiros da Venezuela, que fornecem armas aos índios daquela região.

A notícia causou choro coletivo e um clima de ansiedade na aldeia, porque um morto ianomâmi deve receber um rito funerário, com homenagens de seus parentes. Precisa ser trazido para casa.

Os líderes locais conversaram pelo rádio com o escritório central da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), em Boa Vista. Queriam saber se havia algum voo programado para Piaú, que pudesse trazer o corpo, ou se eles teriam de buscá-lo, numa viagem de vários dias. O rádio tem som ruim, e as palavras são difíceis de entender. Os índios falam em português com sotaque ianomâmi, e o interlocutor não parece conhecer os costumes culturais.

Davi Kopenawa questiona se há um voo de Xiroxiro a Piaú, para trazer o corpo. O funcionário pergunta então o nome do morto, o que é tabu para os ianomâmis.

Após intervenção de uma enfermeira da Sesai, que assume o rádio, a informação é dada por meio do código Papa-Eco-Romeu-Índia.

A solução improvisada atendeu à necessidade do órgão público, e o voo foi marcado para o dia seguinte, mas o choro na comunidade continuou, inclusive durante a madrugada. Em seu canto, a família parecia sofrer mais, mas os outros também estavam desconsolados.

A família de Peri decidiu que ele seria cremado quando chegasse. Por ter sido assassinado, o rito deveria ser mais rápido que o normal (deixar o corpo ao relento para ser consumido pelo tempo e depois recolher e cremar os ossos).

Após isso, as cinzas são guardadas para que futuramente, numa nova festa funerária -como a que estava ocorrendo até o momento da chegada da notícia–, sejam enterradas ou consumidas, para que desapareçam completamente.

Na cultura dos ianomâmis, uma pessoa que morre não pode deixar ”kanasi” (rastros, pegadas, sinais de sua presença) no mundo, incluindo seus pertences. Roupas, rede, utensílios, arco e flecha, escova de dentes, cocar, prato, talheres, o que seja.

Cecília dança para receber convidados de outras aldeias

 

Devem ser apagadas até as marcas que os nós de sua rede deixaram na coluna da maloca. Seu nome nunca mais poderá ser pronunciado. Assim será feito com Peri.

No dia seguinte, às 14h, chegou o avião. O corpo veio acompanhado por uma mulher mais velha de Xiroxiro, que trouxe a cápsula do projétil usado no assassinato e descreveu a cena do crime. Ao ver o cartucho, Kopenawa o reconhece como um tipo ao qual os indígenas não têm acesso. “A culpa é dos garimpeiros que dão armas para índios atacarem outros índios. Quando os ianomâmis brigam, o napë (inimigo) gosta”, afirma ele.

O corpo foi levado para o pátio central da comunidade, onde foi cremado, num processo de várias horas. Os índios então recolheram as cinzas e pilaram os restos dos ossos para guardar o conjunto num vaso, onde ficarão entre 10 e 15 meses, até a próxima cerimônia fúnebre. Virão parentes de todo canto para chorar o morto pela última vez.

Celebrações geram intercâmbio entre xamãs

Entre os visitantes de outras comunidades atraídos a Piaú pela festa funerária, há pelo menos quatro conhecidos xamãs das outras aldeias. Idosos e pessoas com problemas de saúde apelam para seus serviços. Assim, todos os dias, a qualquer momento, em algum lugar da casa comunitária ocorria um rito de cura.

Um homem idoso do Piaú foi tratado por quatro xamãs de fora num longo processo cujos gestos parecem com os de um cirurgião que corta o peito do paciente para acessar seus órgãos internos, mas tudo feito como se os xamãs fossem bailarinos de um espetáculo da dança japonesa butô. O gestual, estilizado e exagerado, parece compreensível até para quem não é conduzido pelos espíritos, sob o efeito da yakoana (pó alucinógeno consumido pelos xamãs).

Sergina e Neila tomam mingau de banana na recepção aos visitantes, marcada por grande fartura

 

Cacau é saída para gerar renda e conter êxodo de jovens

Os habitantes da Terra Indígena Yanomami, que inclui índios da etnia ye’kwana, acabam de lançar um chocolate feito por um chocolatier premiado internacionalmente, de cacau colhido em suas florestas, com genética e sabor peculiares, segundo especialistas.

As árvores nativas da região dão frutos diferentes daqueles obtidos nos cacaueiros da Venezuela e outras áreas da Amazônia. As barras são de chocolate amargo, produzido a partir de sementes das primeiras colheitas da região em 2019.

O responsável pela iguaria é o paraense César de Mendes, já premiado por outros chocolates feitos com variedades nativas da floresta amazônica. Para ele, o produto com o cacau local tem um perfume único, que ele jamais havia experimentado. “O resultado é um chocolate com presença na boca, persistência e doçura especial. É fora da curva”, diz.

Robson separa os frutos do patauá, colocando-os dentro de uma cesta improvisada com folhas, para ser carregada às costas até a comunidade

A ideia de criar um produto com o cacau da terra indígena partiu de um jovem líder da comunidade de Waikás, às margens do rio Uraricoera, Júlio ye’kwana. Ele viu no alto valor do cacau uma alternativa de renda para afastar os jovens da tentação do garimpo e gerar receita. Há vários anos, os índios lançaram uma linha de cogumelos secos e itens de cestaria tradicional, além de pacotes de turismo ao Pico da Neblina, montanha mais alta do Brasil, com guias indígenas.

Júlio apresentou sua ideia de processar o cacau ao programa de desenvolvimento de produtos da floresta do Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com o ATÁ -projeto do chef paulistano Alex Atala. Logo de cara, Roberto Smeraldi, um dos fundadores do ATÁ, estudioso de variedades de cacau, ficou intrigado com o formato dos frutos.

Em julho de 2018, os índios promoveram uma oficina de César de Mendes em Waikás, para ensinar habitantes da área a colher os frutos e processar as sementes para a produção de chocolate fino. Tradicionalmente, os ye’kwanas e os ianomâmis consomem todo o fruto do cacau: aproveitam a polpa e mascam as sementes. Para fazer o chocolate, no entanto, as sementes devem ser fermentadas e depois secas, assadas e maceradas, para só então gerar a massa marrom escura que se tornou um objeto de desejo em todo o planeta.

Edileia separa os pedaços de macaxeira para fazer beiju

 

Neste ano, De Mendes voltou a Waikás e encontrou moradores da região, que colheram frutos e levaram as sementes para a fermentação. “Conseguimos cerca de 50 quilos de amêndoas secas, que renderam 50 quilos de massa de chocolate, resultando em mil barras de 50 gramas”, diz De Mendes.

O primeiro lote do chocolate Yanomami é composto de mil barras de 69% de cacau e 29% de rapadura orgânica, com 2% de manteiga de cacau. O produto foi lançado em São Paulo na semana passada e está sendo vendido no estande do instituto ATÁ no Mercado de Pinheiros (zona oeste da capital paulista).

Índios incorporaram à cultura banana e cana trazidas por europeus

Duas espécies vegetais muito arraigadas na tradição ianomâmi foram trazidas ao Brasil pelos colonizadores europeus: a cana-de-açúcar e a banana. No entanto, ambas se espalharam tão rapidamente entre os índios que passaram a fazer parte de sua cultura material antes mesmo da chegada dos brancos à região.

O resultado disso é que elas aparecem na mitologia ianomâmi como tendo sido criadas junto com outras espécies realmente autóctones, como a batata e a mandioca.

Contando histórias da criação dos alimentos, Davi Kopenawa lista aquelas comidas que “sempre teve, já antes dos brancos chegarem aqui: cará, pupunha, batata, mandioca, cana-de-açúcar e banana”. Outro fruto que faz parte da cultura local é o patauá. Seus cachos dão no alto de uma palmeira, a seis ou sete metros de altura, e são colhidos com golpes de facão. Nutritivo e rico em óleo, o fruto é amassado para virar uma bebida calórica.

Os índios também consomem tabaco frequentemente e de uma forma peculiar: eles colocam entre o lábio e a gengiva do maxilar inferior uma trouxinha da erva pilada envolvida por uma folha maior. O tabaco é sorvido, consumido pela mucosa ou com a saliva. Esse pequeno volume deixa os índios parecidos com pessoas prognatas (que têm o maxilar inferior à frente do superior).

Romi, agarrado ao tronco de uma palmeira, coleta pataúa, fruto usado para fazer uma bebida calórica

 

O tabaco tem um gosto amargo, e o consumo direto pela mucosa bucal e pela saliva potencializa o efeito da nicotina sobre o corpo. Pessoas não acostumadas têm reações típicas de intoxicação, como vômitos, dores de cabeça ou torpor.

Os nativos parecem não sentir nada mais que prazer. A trouxinha acompanha a pessoa o dia todo; quando vai comer, o índio a tira da boca, recolocando depois.

Lenda diz que árvore salvou homens da queda do céu

O cacau é uma árvore arraigada na cultura dos ianomâmis. Tanto que é citada em um mito da criação, correspondente ao Gênesis da Bíblia, que narra o momento em que o mundo foi destruído, quando o céu caiu sobre a terra.

Ao cair, o céu foi escorado por uma árvore de cacau, embaixo da qual se protegeram alguns poucos seres.

É o que narram estes trechos do livro “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert: “A gente do primeiro tempo não era tão sabida. Mas se esforçaram muito tentando impedir a queda do primeiro céu. Transtornados de medo, cortaram estacas frágeis demais, na madeira mole e nos troncos esburacados das árvores tokori e kahu usihi. A maior parte desses ancestrais foi esmagada ou lançada para baixo da terra, a não ser num lugar, onde o céu se apoiou num cacaueiro”. “Isso foi no centro de nossa floresta, onde estão as colinas que chamamos horepë a. Um papagaio werehe foi mordiscando o retalho de céu preso no cacaueiro e aos poucos abriu nele um buraco, por onde essas gentes do primeiro tempo conseguiram escapar.”

As meninas Elizabete, Naira e Josealma, em maloca na aldeia ianomâmi, no Amazonas

 

Pesquisador descobre mais uma língua ianomâmi

Esse povo das montanhas começou a descer para os vales no período colonial, à medida que o contato com os colonizadores foi dizimando os grupos das terras baixas. O vazio populacional foi ocupado principalmente pelos ianomâmis, mas também pelos ye’kwana.

A relação entre os dois povos, de origem e língua diferentes, foi sempre marcada por uma mistura de conflito e complementaridade, o que explica o fato de palavras em ye’kwana terem sido incorporadas ao léxico ianomâmi.

Nesta entrevista, Perri fala sobre o reconhecimento da nova língua, tema de seu livro “Línguas Yanomami no Brasil” (Instituto Socioambiental), recém-lançado.

* Quais são as línguas ianomâmis conhecidas hoje?  família ianomâmi tem seis línguas contemporâneas: Yanomami (ou yanonami), yanomam (ou yanomama ou yanomae), sanöma, ninam, yaroamë e a recém-descoberta yanoma, falada por cerca de 180 pessoas em três comunidades no sul da terra ianomâmi.

A índia Beti

 

Você descobriu falantes de uma língua antes desconhecida, ou o que era considerado um dialeto foi definido como língua em si? ão descobrimos falantes novos. Estudos anteriores classificavam a yanoma como um dialeto de yaroamë, com base apenas na comparação de uma reduzida lista de palavras. Nossa equipe de pesquisa visitou a região em que se falam as duas línguas e, nos relatos que colhemos, os falantes alegam não se entender em suas línguas. Além disso, os relatos históricos desses grupos mostram que eles vieram de lugares diferentes e percorreram rotas diferentes para chegar aonde estão. Tudo indica que são línguas distintas, mas faltam estudos e documentação para demonstrar isso e gerar consenso na comunidade científica.

ianomâmi então é um tronco mais ou menos como o latim? Ou um ramo de línguas próximas, como o ibérico (formado pelo português, o espanhol e o galego)? m termos de semelhança das palavras e das estruturas gramaticais, diria que se assemelha com o ramo ibérico das línguas latinas, mas inclui três línguas um pouco mais distantes. Digamos que o Yanomami e o yanomam, faladas como primeira língua por mais de 80% da população ianomâmi no Brasil, são tão semelhantes entre si como o português e o espanhol. Yaroamë, yanoma e ninam talvez sejam tão diferentes das duas primeiras línguas como o português e o espanhol são diferentes do catalão. O sanöma talvez fosse tão distante das duas primeiras como o francês é diferente do português.

Os ianomâmis falantes de diferentes línguas se entendem? Há uma língua geral? s seis variedades linguísticas não são inteligíveis entre si. Isso, no entanto, não é simples de averiguar em campo, porque os grupos mantêm fortes relações de troca e aliança e se visitam frequentemente, o que faz com que comunidades inteiras sejam bilíngues. Sobre uma língua geral, podemos dizer que, recentemente, no contexto dos fóruns de representação política, o yanomam tem se constituído como uma língua franca de fato, o que é explicável pela proporção de falantes, por sua centralidade geográfica (é a única que tem contato direto com todas as demais línguas da família) e também pela relevância política de seus falantes (foi em yanomam que o documento de fundação da Hutukara, associação de proteção do povo ianomâmi, foi escrito).

Você pode citar palavras que mostrem diferenças e semelhanças entre as línguas ianomâmis? lguns pares de línguas, como Yanomami e yanomam, apresentam até 82% de cognatos em seu léxico, enquanto outros pares, como sanöma e ninam, apresentam apenas 63%, segundo contagem do linguista Ernesto Migliazza feita em 1974. Assim, não é difícil encontrar palavras iguais ou muito similares em todas as línguas ianomâmis. A palavra para “anta”, que em Yanomamiyanomam, ninam e yanoma se pronuncia fama (pronuncia-se “chama”), em sanöma é sama e em yaroamë se diz xama (o “x” representa o “r” velar, parecido com o “r” do francês). Por outro lado, há diversos exemplos que ilustram o caminho distinto e independente que cada uma das línguas vem seguindo, como a palavra para cachorro: pore a (sanöma), okoro (ninam); pëtaxi (yaroamë), pitasi (yanoma), hiima (Yanomami), hiima (yanomam).

A família linguística ianomâmi tem semelhança com outras línguas faladas nas Américas? á tentativas de relacioná-la com as línguas pano e takana, faladas no sudoeste da Amazônia, mas também com línguas chibcha, faladas na América Central e norte da América do Sul. Nenhuma dessas tentativas foram convincentes e a família ianomâmi permanece como uma das cerca de 40 famílias linguísticas da América do Sul.

Como se explica que, em um território relativamente pequeno, haja tantas línguas diferentes? emos evidências de que essa diferenciação se iniciou em um espaço geográfico ainda mais limitado, na Cordilheira do Parima, de 10.000 km², uma região montanhosa, com vales de difícil transposição. Mas, considerando as práticas de ocupação e mobilidade dos ianomâmis, parece improvável que essa diversidade tenha nascido devido às condições geográficas desfavoráveis ao intercâmbio entre os grupos. É mais provável que esteja relacionada aos processos de autoidentificação e de diferenciação identitária. Nesse contexto, pequenas diferenças linguísticas, e a constante reafirmação dessas diferenças ao longo dos anos, se tornam elementos importantes na constituição identitária local. O caso da família ianomâmi não é único. A maior diversidade de línguas do mundo concentra-se em uma pequena área dos vales centrais da ilha de Nova Guiné: a Papua Nova Guiné, que ocupa metade da ilha, tem por volta de 850 línguas. No Brasil, são cerca de 200 línguas indígenas.

Hélder Perri Ferreira, 43 Linguista brasileiro com doutorado na Universidade Radboud em Nijmegen, Países Baixos, trabalha com os ianomâmis desde 2002. Começou como indigenista na antiga Comissão Pró-Yanomami (CCPY), instituição que incentivava o aprendizado de ao menos uma língua ianomâmi por seus funcionários. Lançou em dezembro o livro “As Línguas Yanomami no Brasil”, em parceria com a antropóloga Ana Maria Machado e o geógrafo Estêvão Benfica Senra.

Davi Kopenawa, líder dos ianomâmis, toma mingau de banana na aldeia do Piaú, no Amazonas

 

Líder pede expulsão total do garimpo da terra indígena

“O governo brasileiro está ameaçando nosso território”, afirmou o líder de (presumidos) 63 anos.

No discurso, ele também relembrou o final dos anos 1980, quando cerca de 40 mil garimpeiros invadiram a terra habitada por eles e cerca de 15% dos índios morreram de doenças espalhadas pelos invasores. Hoje, a estimativa é que haja cerca de 20 mil garimpeiros na região.

Pouco antes da premiação, os ianomâmis e os ye’kwanas divulgaram um manifesto em forma de carta ao governo, no qual denunciam a retirada de bases do Exército e a presença desses garimpeiros na Terra Indígena YanomamiKopenawa foi indicado também ao Nobel da Paz de 2020, junto com o cacique caiapó Raoni Metuktire, 89.

Kopenawa nasceu perto de 1956 (não há registro exato) numa comunidade de língua yanomae chamada Marakanã, na região do alto rio Toototobi, perto de Piaú. Quando era pequeno, se lembra, viu chegar um grupo de homens brancos. “Minha mãe correu para se esconder e mandou que eu me escondesse. ‘Eles vão comer você. Eles são bichos’, ela falou”.

O grupo era da Comissão Demarcadora de Limites, e estava ali para traçar a fronteira exata entre Brasil e Venezuela no fim da década de 1950. Os visitantes pediram ajuda aos índios para carregar os fardos e seguir viagem. Cerca de 20 ianomâmis foram com os brancos até a fronteira com a Venezuela, a dois dias de caminhada da aldeia.

“Eles que deram à nossa comunidade o nome de Marakanã, porque diziam que ela tinha o formato do estádio do Rio de Janeiro”, conta Kopenawa, comparando a forma das malocas circulares às arquibancadas do Maracanã.

Ali moravam centenas de pessoas. Depois da visita dos funcionários do Estado brasileiro, algumas adoeceram. “O napë (branco) da cidade parece sadio, mas eles são contaminados. Um ou dois meses depois começou a morrer gente de gripe. E nós não sabíamos que gripe vira pneumonia. As crianças começaram a morrer, os rapazes, os homens”.

Outra doença comum na região do Toototobi é a oncocercose, também conhecida como “cegueira dos rios”. A enfermidade foi trazida da África por missionários nos anos 1970, e é transmitida por mosquitos que chupam o sangue humano, como o pium, comum na Amazônia. Seu causador é um micro-organismo chamado filária (Onchocerca volvulus).

Uma vez infectado, o indivíduo começa a ter nódulos indolores, que são depósitos de milhares de filárias. Os parasitas se movem pelo corpo e podem chegar aos olhos, causando cegueira incurável.

A população de Marakanã foi morrendo por doenças, até que seus líderes decidiram dividir o grupo e abandonar o lugar. Três novas comunidades surgiram. A maior delas se chamava Toototobi, como o rio e a região. Mas nos anos 1980 a invasão garimpeira trouxe uma nova onda de doenças e poluiu de mercúrio o curso d’água. Os índios tiveram que se mudar novamente.

“Em 1986, abandonamos Toototobi. Os peixes estavam todos podres, contaminados por mercúrio. Fomos embora”, conta. A população se dividiu. Uma parte desceu o rio e fundou uma comunidade chamada Novo Demini. A outra seguiu na região, mas se mudou anos depois e formou o Piaú.

Quando adolescente, Davi Kopenawa recebeu de missionários seu primeiro nome, do qual não gosta. Mais tarde, como falava português, virou intérprete pela Funai, e passou a percorrer as áreas ianomâmis.

Em 1983, passou a militar pela criação de uma reserva. O movimento resultou na homologação da Terra Indígena Yanomami, em 1992. Ele também fundou a Hutukara Associação Yanomami (HAY), principal entidade que representa o grupo. Em 1988, recebeu o prêmio Global 500 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e uma das mais altas comendas do Estado brasileiro, a Ordem de Rio Branco.

O nome Kopenawa (marimbondo) foi recebido após uma iniciação de xamã, e é assim que ele gosta de ser chamado. “Eu vou sempre ficar em casa como um marimbondo. Se alguém pisar na minha casa, aí eu reajo”.

Homem branco fica careca por ter desmatado muito, explicam os xamãs

Sebastião Salgado conversa com Davi Kopenawa. Conta que nasceu numa fazenda de gado. “Por isso você é careca”, afirma o líder indígena. Em seguida explica: “Os xamãianomâmis dizem, quando perguntamos por que os napë (homens brancos) são carecas, que é porque eles desmataram muito e os espíritos se voltam contra eles”.

O fotógrafo, então, lhe explica que não é totalmente careca, mas que raspa a cabeça desde 1994, quando fez uma reportagem em campos de refugiados de Ruanda, na África, onde havia um surto de piolhos.

Produto das expedições vai virar mostra e livro

A expedição de Sebastião Salgado à comunidade ianomâmi chamada Piaú é parte do trabalho de documentação da Amazônia que o fotógrafo realiza desde 2013. O material será reunido em exposição e livro, com inauguração e lançamento previstos para 2021. “Amazônia” dá sequência a uma série de projetos de reportagens fotográficas de longo curso que Salgado produz desde o final dos anos 1980, entre elas “Trabalhadores”, sobre o fim de formas de trabalho manual diante da revolução tecnológica, ”Êxodos”, sobre grandes migrações desde os anos 1990, e “Gênesis”, sobre áreas do planeta pouco alteradas pela ação humana. As mostras desses trabalhos são as exposições de fotografia mais visitadas do mundo.

Constantino, índio ianomâmi da aldeia Piaú, na fronteira entre os estados de Roraima e Amazonas

 

O projeto atual documenta populações indígenas e paisagens naturais do bioma que originalmente ocupava mais da metade do território do Brasil. A Folha acompanha as viagens do fotógrafo brasileiro radicado em Paris para as reportagens da série “Sebastião Salgado na Amazônia”. Desde dezembro de 2017, foram publicados cadernos sobre os índios korubos, ashaninkas, suruwahas yawanawasmarubos , sobre o garimpo de Serra Pelada e agora sobre os índios ianomâmis. Na viagem à comunidade de Piaú, Salgado estava acompanhado do geógrafo Estêvão Senra, que é fluente na língua yanomam, o idioma falado na aldeia localizada na região de Toototobi; e dos assistentes Agostinho de Carvalho e Francisco da Silva Lima, indigenistas.

Fonte: Folha de SP

 

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