Dia 12 de agosto aconteceu o 1º vestibular em uma Aldeia Indígena de Rondônia

Avaliamos que este momento constituiu uma importante referência para a UNIR nesta caminhada de dez anos de aprendizagens interculturais com os Povos originários da Amazônia.

Dia 12 de agosto aconteceu o 1º vestibular em uma Aldeia Indígena de RondôniaApós 10 anos de existência da aprovação do Projeto Pedagógico do Curso (PPC), ocorrido em outubro de 2008, a Licenciatura em Educação Básica Intercultural por meio de seu Departamento, estendeu pela primeira vez o processo seletivo discente até uma aldeia indígena do estado de Rondônia.

Nesta 7ª edição do vestibular, atendendo solicitação dos Povos Indígenas, dentre outros, o Professor indígena André Jabuti, foi escolhida a Aldeia Ricardo Franco, da Terra Indígena Rio Guaporé, distante cerca de 250 km de Guajará-Mirim, com acesso único por meio fluvial.

Avaliamos que este momento constituiu uma importante referência para a UNIR nesta caminhada de dez anos de aprendizagens interculturais com os Povos originários da Amazônia. Uma trajetória que tem sido marcada por diálogos, tensões, consultas, desafios e sobretudo, permanentes esforços de rupturas com práticas coloniais que negam ou discriminam as diferenças culturais étnicas”.

Mas essa história não começou hoje, iniciou em 2005 com a realização do Seminário: “Universidade Indígena” coordenado pelo Núcleo de
Educação Escolar Indígena de Rondônia (NEIRO) sob a coordenação do Professor Doutor Edinaldo Bezerra.

A partir daí uma forte mobilização envolvendo movimentos sociais indígenas – em parceria com entidades indigenistas, jovens docentes,
pesquisadores e pesquisadoras da região central do estado, problematizaram a ausência dos Povos Indígenas na educação superior pública, isto é, na Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

No ano de 2007, o processo de criação do curso foi desencadeado por um documento elaborado por professores e professoras indígenas dos
Povos Arara e Gavião, encaminhado ao Prof. Especialista Nelson Escudero, chefe do Departamento de Ciências Humanas e Sociais (DCHS) solicitando o curso de docência indígena especifico e diferenciado.

A solicitação contou com o apoio fundamental da Organização Panderej coordenada pela Liderança indígena Heliton Tinhawambá Gavião, a Organização dos Professores Indígenas de Rondônia (OPIRON) dirigida pelo Professor indígena Zacarias Kapiaar Gavião e o Núcleo de Educação Escolar Indígena de Rondônia (NEIRO) sob a responsabilidade do Professor Josias Gavião, tendo em vista as diversas reações de forças contrárias à implantação do curso dentro das instâncias deliberativas da UNIR.

Teve papel significativo no processo, aliados como a Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (FETAGRO) e o gabinete do então deputado federal Anselmo de Jesus (PT) que juntamente com os indígenas acompanharam as etapas de discussão em defesa do curso, bem como de profissionais do Setor Indígena da Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) e docentes da Pedagogia da UNIR – Campus de Ji-Paraná.

Um ano depois, em 2008 o Projeto Pedagógico do Curso (PPC), foi aprovado (Resolução 198/CONSEA) com outros novos cursos,
democratizando um pouco mais a educação superior pública no estado. Não foi um trabalho fácil. Vozes declaradas progressistas da instituição não enxergavam avanços nesta política possibilitada pelo Programa de Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), na gestão do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Ministro da Educação Fernando Haddad, do Reitor Prof. Dr. José Januário de Oliveira Amaral e da Vice-Reitora Profa. Dra. Maria Ivonete Barbosa Tamboril. Hoje estas vozes estão silenciadas.

O primeiro vestibular indígena foi realizado no ano de 2009 que teve como público específico 117 candidatos (as) docentes indígenas, que já atuavam na Educação Escolar Indígena em Rondônia. Desse primeiro processo seletivo ingressaram representantes de 17 povos: Tupari, Oro Mon, Oro Waram Xijein, Gavião, Puruborá, Cinta Larga, Jabuti, Aikanã, Cao Oro Waje, Surui, Oro Nao, Oro At, Cabixi, Oro Eo,
Arara, Karitiana e Oro Win.

Nos vestibulares posteriores, outros povos foram ingressando na UNIR, os Zoró, Canoé, Arikapu, Mamaindê, Sabanê, Karipuna, Negarotê, Kaxarari, Amondawa, Uru Eu Wau Wau… As etapas de estudo na UNIR – Campus de Ji-Paraná se caracterizam por um conjunto de diferenças linguísticas, geográficas, culturais e históricas, envolvendo homens, mulheres e crianças que afirmam e compartilham suas culturas e também se disponibilizam a aprender em uma perspectiva intercultural outra, uma pedagogia critica decolonial, que se esforça para traduzir em saberes acadêmicos as demandas apresentadas pelas sociedades indígenas de Rondônia e noroeste do Mato Grosso.

Neste processo de 2018, 437 candidatos e candidatas indígenas tiveram suas inscrições homologadas, explicitando que na relação de
“candidatos por vaga”, esse número representa uma concorrência aproximada de 9 inscritos por vaga ofertada.

Para o Professor doutor Quesler Fagundes Camargos, chefe do Departamento de Educação Intercultural (DEINTER) onde está localizado o Intercultural, “essa grande procura pelo curso demonstra que as necessidades de formação e qualificação dos professores indígenas das escolas instaladas nas comunidades indígenas do estado de Rondônia ainda não foram devidamente atendidas e que a Universidade, por sua vez, deve promover maiores esforços para implementar ações de garantia do direito à educação diferenciada, à ampliação no acesso e à permanência dos Povos Indígenas no ensino superior”.

As avaliações internas e externas evidenciam que o Curso de Licenciatura em Educação Básica Intercultural tem contribuído para a formação docente indígena e seus povos no âmbito do Ensino Fundamental e Médio. A concepção de conhecimento curricular tem se inspirado nas demandas locais, por meio das áreas de Educação Escolar Intercultural no Ensino Fundamental e Gestão Escolar, Ciências da Linguagem Intercultural, Ciências da Natureza e da Matemática Intercultural e Ciências da Sociedade Intercultural.

Vale acrescentar que desde o primeiro ano de sua existência, o vestibular indígena só havia ocorrido nos Campi da Universidade Federal de Rondônia. Este ano além de ter sido realizado nos municípios de Porto Velho, Ji-Paraná, Cacoal, Vilhena, na sede do município de Guajará-Mirim, ocorreu também na distantes Aldeia Ricardo Franco, às margens do Rio Guaporé. Que venham outros processos seletivos em mais aldeias indígenas.

Fonte: Tudo Rondônia

 

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