Teatro Municipal do Porto tem nova programação e quer ser casa para os jovens artistas da cidade

Ao fim de cinco anos como diretor artístico, Tiago Guedes faz um balanço positivo em entrevista ao Observador, partilha as prioridades para o futuro e destaca o que ver na próxima temporada.

“Chegámos a um ponto de consolidação do projeto e embora as pessoas pensem que ele sempre esteve cá, não é verdade. Tem cinco anos e ainda é algo recente na cidade”, começa por dizer Tiago Guedes, diretor artístico do Teatro Municipal do Porto (TMP), em entrevista ao Observador. O balanço é positivo e os números ditam isso mesmo. Nos dois polos do TMP — Rivoli e Campo Alegre — desde 2014 passaram mais de 600.000 pessoas, o que representa 90% de taxa de ocupação, para ver 570 espetáculos de dança, teatro, música, cinema, circo contemporâneo, literatura ou marionetas.

O teatro conseguiu ir além da sua missão, por um lado, apresentou uma programação internacional forte de dança e teatro, mas por outro lado deu um grande apoio aos artistas e companhias da cidade que aqui apresentam as suas criações.”

Tiago Guedes sublinha que grande parte do orçamento e da programação disponíveis são dedicados a companhias do Porto e que esse apoio passa pela cedência de espaços de ensaio e de residências artísticas. O coreógrafo e diretor artístico encontrou em 2014 um teatro “com uma escala de visibilidade muito reduzida” e, por isso, alterar o seu posicionamento tornou-se fundamental. Hoje o TMP trabalha com grandes estruturas a nível nacional e no universo internacional estabeleceu parcerias que “possibilitam a circulação de artistas estrangeiros, mas também dão a conhecer artistas que co-produzimos e que passam a ser apresentados ou seguidos com mais atenção por estes parceiros”.

No futuro, “não nos podemos sentar à sombra da bananeira”, é necessário solidificar o que tem sido feito e implementar novidades. Uma delas é o projeto de jovens artistas associados, um programa de acompanhamento aos novos talentos nas artes performativas da cidade, num trabalho que junta a formação e a produção.

A estrutura do teatro é tão vasta que consegue chegar a um público muito alargado e a um conjunto de artistas muito abrangente, desde os mais consagrados que passam pela cidade do Porto e que toda a gente quer ver, sendo também uma ferramenta de trabalho para os jovens que se têm formado connosco, realizando os workshops e as materclasses que propomos.”

Tiago Guedes refere que é “interessante perceber como o teatro é uma casa e uma ferramenta para os artistas se desenvolverem depois das suas formações”, e promete que o TMP vai estar “muito atento” aos novos talentos que saem das escolas, afinal, serão eles os grandes artistas do futuro e o teatro tem “a responsabilidade de os acompanhar”.

Flamenco, mirandês e uma biografia na nova programação

Em conversa com o Observador, Tiago Guedes destaca alguns espetáculos integrados na programação “intensa” dos próximos seis meses. A presença espanhola, cada vez mais vincada no TMP, será reforçada no início desta temporada com a estreia de “La Fiesta”, uma peça de Isreal Galván, seguindo-se de um concerto de Ninho de Elche no Café Rivoli, ambos sevilhanos. “Tratam-se de dois dos maiores artistas contemporâneos cuja base é o flamenco.”

Em outubro, o Teatro do Campo Alegre recebe a peça “A menor língua do mundo”, de Alex Cassal e Paula Diogo, um trabalho que parte do pressuposto que em 2100 o mundo poderá ter perdido metade das suas línguas, ou seja, dos 7000 idiomas falados atualmente, prevê-se que 50% não sobrevivam até ao final do século. Num processo criativo de pesquisa e investigação, a dupla fez uma viagem às regiões portuguesas onde ainda se falam línguas como o mirandês, aragonês ou barranquenho, mostrando como todas convivem e sobrevivem. Um espetáculo antropológico, que revela uma parte do país menos visível, mas cheia de tradições.

Vindo diretamente de França, o encenador, artista visual e cenógrafo, Philippe Quesne regressa ao Rivoli para apresentar uma fábula sobre a natureza humana, em constante processo de tentativa e erro. Em “Crash Park, la vie d’une île”, Philippe parte de um cenário concreto onde um acidente de avião numa ilha deserta pode tornar-se “uma metáfora para o presente, uma visão de futuro próximo, um recomeço para (quase) tudo ou um bom início para uma história”. Em palco estará uma ilha, fauna e flora improvisadas, animais, um vulcão e alguns sobreviventes do desastre, num texto onde o sentido de humor peculiar do encenador será evidente.

De 9 a 15 de dezembro, a semana é dedicada às famílias e aos mais novos, com um calendário repleto de espetáculos, workshops e conferências no Campo Alegre. “Propor a nossa programação desde tenra idade é importante. Este programa paralelo é talvez o menos visível, mas é estrutural e pensado a médio e a longo prazo, pois acreditamos verdadeiramente que se os miúdos se habituarem a vir ao teatro vão ser o público de amanhã.”

Tiago Guedes reforça ainda o 88.º aniversário do Teatro Rivoli, que este ano se prolonga por três dias — 16, 18 e 19 de janeiro de 2020 – onde será apresentado de forma gratuita “uma espécie de cartão de visita do que é o teatro”, condensando a própria programação em espetáculos e atividades. Entre novas criações e réplicas, há muito para ver, sendo que um dos destaques vai para “Little B”, a nova criação da companhia Visões Úteis, inspirada na bibliografia profissional do ator Mário Moutinho, explorando a “pluralidade de vidas que uma vida pode conter”.

Fonte: Observador

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