Universidade Pública

ENTREVISTA – CHRISTOPHER NEWFIELD – Como os Estados Unidos arruinaram suas universidades públicas

A transformação das universidades públicas norte-americanas em mais uma modalidade de negócios foi um “grande erro”, afirma professor da Universidade da Califórnia com livro sobre o tema

Enquanto no Brasil o governo federal pretende que as universidades terceirizem sua gestão e mesmo as atividades-fim sob comando de organizações privadas (OS), passem a depender cada vez mais de fundos de mercado, dirijam seus esforços para o empreendedorismo e ampliem a arrecadação própria com doações, cobranças de taxas e, futuramente, de mensalidades (como já demanda o Banco Mundial em seu último documento sobre o país), nos Estados Unidos, onde tudo isso já foi feito, o resultado foi amplamente negativo. A avaliação é de Christopher Newfield, professor da Universidade da Califórnia (a maior e mais prestigiosa universidade pública norte-americana) que lançou recentemente o livro The Great Mistake: How We Wrecked Public Universities and How We Can Fix Them (“O grande erro: como arruinamos as universidades públicas e como podemos recuperá-las”, Johns Hopkins University Press, 2016). Na entrevista a seguir, ele demonstra que a política neoliberal para as universidades norte-americanas foi também lá, no modelo original, um desastre.

 

LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL – Nas últimas décadas, enfrentamos um discurso dominante que colonizou o senso comum ao afirmar que as universidades devem fazer “entregas rápidas”, focadas em “resultados”, ser cada vez mais concebidas de acordo com modelos de negócios, produzir conhecimento como mercadoria e educar profissionais para ganhos privados. Alguma parte da ideia de “universidade” se perdeu ao longo do caminho?

CHRISTOPHER NEWFIELD – Isso não se perdeu, foi deliberadamente enterrado. As universidades fazem várias coisas que nenhuma outra instituição faz. Elas criam conhecimento como parte do mesmo processo pelo qual o espalham – a pesquisa é tão importante quanto o ensino. A pesquisa e o ensino universitário são autodirecionados e, quando as universidades estão funcionando corretamente, são exemplos de uma autogestão que é muito difícil de alcançar em um local de trabalho comum. O resultado desejado é triplo: o desenvolvimento pessoal-intelectual combinado do aluno (o que a tradição teórica prussiana chamou de Bildung); um novo conhecimento sobre todos os tópicos do planeta; e a prática do conhecimento como um processo totalmente social. Esta última não é bem compreendida, mas coloca o aprendizado e a pesquisa fora das estruturas de mercado. Nos últimos cinquenta anos, as empresas e seus aliados políticos tentaram controlar as universidades, por razões que não são tão diferentes das da Igreja Católica ou do Estado bonapartista em outras épocas.

 

Você apresenta uma imagem impressionante do desmantelamento das universidades públicas dos Estados Unidos e sua transformação em meros prestadores de serviços, orientada para o mercado. O que motivou essa transformação e em que momento histórico o ataque às universidades públicas dos Estados Unidos e a sua missão pública fundamental começou?

O motivo, em uma frase, era bloquear as ameaças aparentes das universidades aos poderes econômicos e políticos estabelecidos. Um momento decisivo foi a campanha de Ronald Reagan para governador da Califórnia em 1966. Seu oponente, o então ocupante do cargo Pat Brown, era um progressista popular do New Deal que construía obras e serviços públicos para pessoas comuns (brancas). Eleitores gostam de escolas, rodovias, hospitais, pontes e faculdades gratuitas; Reagan decidiu que não poderia concorrer contra Brown, mas poderia concorrer contra manifestantes estudantis de esquerda na UC Berkeley, e foi isso que ele fez. Ele derrotou Brown, em parte, apresentando as universidades de Brown como lugares que encenavam ataques a norte-americanos respeitáveis e tementes a Deus, que reverenciavam o sistema de livre-comércio. Um segundo evento importante ocorreu em 1970, quando o futuro juiz da Suprema Corte, Lewis Powell, então um moderado juiz republicano da Virgínia, enviou um longo memorando à Câmara de Comércio, pedindo às empresas que lutassem contra o sentimento anticapitalista alojado nos campi das universidades. Suas sugestões para financiar pesquisadores e think tanks que criariam e difundiriam visões conservadoras ajudaram a construir as redes políticas conservadoras que ainda dominam a política local.

 

Em seu livro, você diz que, durante 25 anos, trabalhou em um lugar privilegiado, testemunhando o esforço contínuo de tornar a universidade pública mais parecida com uma empresa. Você pode explicar melhor como isso aconteceu e o preço social pago por essa privatização indireta?

Nas décadas de 1980 e 1990, os gerentes das universidades aceitaram o novo argumento de consenso – tanto dos conservadores de Reagan quanto dos centristas de Clinton – de que bens como o ensino superior tinham benefícios fundamentalmente privados e não públicos, devendo assim ser pagos em particular. Quando comecei a trabalhar em comitês de planejamento e orçamento depois de 2000, fiquei surpreso com a perda de confiança no modelo de financiamento público e com a fé cega de que os contratos de filantropia e pesquisa tornariam as universidades públicas bem-sucedidas como suas contrapartes privadas. Isso criou dois problemas. A primeira foi que as universidades enfraqueceram sua reivindicação pelos altos níveis de financiamento público de que desfrutavam anteriormente. Se a graduação da universidade serve para aumentar os salários individuais, em vez de promover a sociedade, o público não precisa pagar o custo da educação por meio de impostos. Essa visão está incorreta: a maioria dos efeitos do ensino superior é não pecuniária, ou social, ou ambos. O segundo problema é que as universidades não ficam realmente ricas com fundos privados. Elas se tornam dependentes da renda proveniente da mensalidade do estudante, que agora atingiu seu limite. E elas perdem dinheiro com subsídios de pesquisa patrocinados e ganham muito pouco para operações gerais da filantropia. O preço social assume várias formas: as universidades têm problemas financeiros, os estudantes pagam demais e assumem dívidas educacionais e a sociedade recebe menos benefícios não monetários porque o ensino e a pesquisa gravitam em torno de assuntos monetizáveis. Observe também que os estudantes que possuem altas dívidas educacionais desejam uma renda mais alta para pagá-las. Eles são menos capazes de seguir seus compromissos políticos ou éticos no serviço social, uma vez que os salários mais baixos desses empregos dificultam o pagamento da dívida da universidade.

 

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Associação Brasileia de Hispanistas divulga Manifesto

abhMANIFESTO PÚBLICO

 Nós, professores e pesquisadores, membros da Associação Brasileira de Hispanistas, reunidos em Assembleia nesta data por ocasião do IX Congresso da referida Associação, realizado nas Universidades Federal da Integração Latino-americana e Unioeste, em Foz do Iguaçu, nos manifestamos publicamente sobre as medidas que vêm sendo adotadas recentemente pelo Governo interino e que colocam em risco as conquistas alcançadas no âmbito das Universidades públicas nacionais.

Assistimos nos últimos anos a um expressivo crescimento das Universidades públicas no país, resultado de um projeto de reestruturação e ampliação que representou um significativo aumento da oferta de vagas, de melhoria de infraestrutura, de contratação de novos docentes, de descentralização geográfica e implementação da política de cotas, resultando numa Universidade mais forte, mais democrática e mais inclusiva.

De acordo com dados do Ministério da Educação, houve um evidente crescimento no número de matrículas em todo o país entre 2003 e 2013, em especial nas regiões mais carentes. No nordeste, o aumento foi de 94%, no norte, de 76%, no sudeste, de 47%, no centro oeste, de 46% e no sul de 26%. Na educação à distância, o número de matrículas nos cursos de graduação passou de 49.911 em 2003 para mais de 1,5 milhão em 2013. Do mesmo modo, a oferta de cursos de graduação passou de 16.505 em 2003 para 32.049 em 2013, apresentando um crescimento de 94%.

 Houve ainda uma evolução significativa na qualificação dos docentes, passando de um índice de 39,5% de professores doutores em 2003 para 53,2% até 2013, além da criação de 18 novas universidades e de 173 novos campi. No que se refere à pós-graduação, adverte-se um expressivo incremento no número de matrículas, passando de 48.925 em 2002 para 203.717 em 2014, enquanto o número de professores efetivos federais no ensino superior passou de 40.523 em 2003 para 75.279 em 2014.

 Esse novo cenário propiciou que nossas universidades se tornassem espaços de construção de múltiplos saberes. Neste sentido, foi possível incluir discussões e reflexões em estreita sintonia com as demandas concretas de setores historicamente alijados da produção de conhecimento acadêmico. Consequentemente, esses setores vêm atuando como agentes multiplicadores em seus entornos, o que permite advertir mudanças radicais na produção de conhecimento na sociedade brasileira.

 Por esta razão, repudiamos:

 – a desvinculação orçamentária da educação em relação ao PIB brasileiro;

– os cortes de bolsas destinadas aos estudantes de graduação e de pós-graduação; à assistência estudantil e à mobilidade internacional;

– os cortes de auxílios à pesquisa, bem como à qualificação docente;

– a extinção do Ministério da Ciência e Tecnologia;

– a política de desmonte de acesso e permanência na universidade;

– os projetos de privatização da universidade pública;

 Reiteramos, desta forma, nosso apoio à manutenção de uma universidade pública, plural, gratuita, livre, autônoma, democrática e inclusiva, respeitando e aprimorando as conquistas das últimas décadas.

 Foz do Iguaçu, 25 de agosto de 2016

 

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