Línguas em Perigo

Cristina Calderón, última falante da lingua Yagán, morre no Chile aos 93 anos

Wikipédia

Antes de morrer, Cristina ainda trabalhou com na criação de um dicionário que traduz a língua para espanhol, havendo assim ainda uma esperança de preservação da cultura.

Com a morte da última guardiã desta relíquia cultural, a língua indígena Yamana, na América do Sul, perdeu agora todos os seus falantes. Cristina Calderón, que dominava a língua Yamana da comunidade Yagan, morreu na quarta-feira, aos 93 anos.

Depois da morte da sua irmã em 2003, Cristina era a última pessoa no mundo que sabia falar a língua. Mas nem tudo está perdido com a sua morte, já que a idosa chilena trabalhou na criação de um dicionário da língua com traduções para o Espanhol antes da sua morte, revela o The Guardian.

“Com ela, uma parte importante da memória cultural do nosso povo desaparece”, escreveu Lidia González, filha de Cristina, no Twitter, que acredita que, no entanto, o dicionário traz alguma esperança de que a língua não morra com a sua última falante.

Lidia é também uma das representantes que está atualmente a trabalhar na redação de uma nova Constituição no Chile.

“Apesar de com a sua morte, uma riqueza de, especialmente, conhecimento empírico seja perdido em termos linguísticos, a possibilidade de se resgatar e sistematizar a língua continua aberta”, acrescenta.

Apesar de ainda haver alguns membros da comunidade Yagan vivos, ao longo das gerações, as pessoas progressivamente deixaram de falar e aprender a língua, que é considerada “isolada” devido à dificuldade de se determinar a origem das suas palavras.

Calderón vivia numa casa simples e ganhava a vida a vender meias tricotadas na vila chilena de Villa Ukika, criada pelos Yagan nos arredores de Puerto Williams.

O grupo indígena ancestral costumava viver nos arquipélagos no extremo sul da América Latina, que pertencem agora ao Chile e à Argentina, numa zona próxima da Antártida.

Um quinto das línguas mundiais pode morrer até 2100, indica estudo

Cerca de 1.500 línguas podem morrer até 2100, de acordo com um novo estudo realizado pela Australian National University (ANU), que apontou que das 7 mil línguas reconhecidas no mundo cerca de metade estão ameaçadas de extinção – com 1.500 em particular risco, ou seja, um quinto. “Descobrimos que, sem intervenção imediata, a perda de idiomas poderia triplicar nos próximos 40 anos. E até o final deste século, 1.500 idiomas poderiam deixar de ser falados”, revelou o coautor do estudo, Lindell Bromham.

O estudo identificou até 51 novos fatores de stress nas línguas ameaçadas de extinção e uma das descobertas mais surpreendentes está relacionada com o efeito do aumento dos anos de escolaridade que fizeram crescer o perigo da linguagem em alguns países, razão pelo qual os investigadores reforçam a necessidade de construir currículos que apoiem a educação bilíngue, promovendo a proficiência da língua indígena assim como o uso de línguas dominantes regionalmente.

“Entre os 51 fatores que investigámos, também encontramos alguns pontos de pressão realmente inesperados, incluindo a densidade rodoviária”, apontou Bromham. “Quanto mais estradas houver, a ligar as cidades, as vilas e aldeias, maior o risco de as línguas serem ameaçadas. As estradas ajudam as línguas dominantes a passarem por cima de outras línguas menores”, referiu.

E quais idiomas podem ser perdidos? De acordo com um estudo da UNESCO sobre línguas ameaçadas de extinção, as áreas com um número particularmente grande de línguas que estão em vias de extinção incluem: África, Sibéria oriental, Sibéria Central, Austrália do Norte, América Central, Planalto Noroeste do Pacífico, assim como o Oklahoma (EUA) e Cone Sul da América do Sul.

A África é o continente com maior diversidade linguística do mundo. As pessoas falam cerca de 2.000 idiomas diferentes. A União Europeia, com 28 Estados-membros, tem 24 línguas oficiais, uma vez que alguns partilham a mesma língua oficial. Estima-se que entre 7 e 10 milhões de pessoas sejam falantes nativos do catalão na Espanha, França e Itália. No entanto, a população total de Malta de 420.000 é toda bilíngue inglês-maltês. Por outro lado, o irlandês, a primeira língua estatal da Irlanda, não tem status oficial na Irlanda do Norte, onde é caracterizado como uma língua regional e foi classificado pela UNESCO como “definitivamente ameaçada de extinção”.

 Via MULTINEWS 

 

Indígenas querem fundar a 1ª Academia da Língua Nheengatu

Indígenas querem fundar a 1ª Academia da Língua Nheengatu

Professores e escritores indígenas amazonenses se organizam para criar estratégias de ensino do Nheengatu para atingir comunidades e públicos na internet e no ensino superior. A imagem acima mostra Edson Baré com livros em Nheengatu (Foto: Paulo Desana/Dabukuri/Amazônia Real)

Manaus (AM) – Professores e escritores indígenas amazonenses querem fundar a primeira Academia da Língua Nheengatu (conhecida como Língua Geral). O objetivo é valorizar a língua, que já foi proibida na Amazônia pelos colonizadores. Eles pedem a presença de cursos nas universidades brasileiras e se organizam para criar estratégias de ensino que devem atingir comunidades e públicos na internet.

“A Academia vem para dar visibilidade à língua, para pôr a língua em seu devido lugar, de onde nunca deveria ter saído que é justamente a língua mãe da Amazônia. Queremos trazer o retorno dessa língua”, explica o escritor indígena Yaguarê Yamã, do povo Maraguá.

A Academia deve agregar três ortografias da língua que foram desenvolvidas por povos indígenas da região do Baixo Rio Negro e do Baixo Rio Amazonas, no estado do Amazonas, e da bacia do rio Tapajós, no Pará. A iniciativa é coordenada por 21 membros de várias regiões da Amazônia, a maioria do Amazonas e do Pará. Entre os nomes em destaque estão: Dadá Baniwa e Edson Baré, George Borari, e Yaguarê Yamã.

Com estatuto em desenvolvimento, a Academia da Língua Nheengatu estabelece uma série de atividades a serem desenvolvidas que inclui, dentre outras: produzir e atualizar continuamente um Dicionário Unificado e Ortográfico da Língua Geral Amazônica no Brasil; Criar, alimentar e manter atualizada uma Biblioteca Digital de materiais históricos e atuais, científicos e didáticos sobre a língua Nheengatu; Promover e apoiar a produção de materiais didáticos para ensino da língua Nheengatu nas comunidades indígenas.

Dadá Baniwa (no centro das crianças) é mestre em linguística e línguas indígenas
(Foto: Ana Hamdan/Amazônia Real)

Com reuniões sendo feitas desde junho de 2020, o grupo instituiu que a Academia será formada por patronos fundadores, sócios fundadores, entidades associadas e colaboradores.

“A gente se encontrou por meios virtuais e começamos a conversar e discutir de que forma as escolas, as instituições estavam trabalhando a questão da língua nheengatu no seu dia a dia. Percebeu que existem formações paralelas, feitas por indígenas e não indígenas, então a gente viu a importância de se organizar”, explica Edson Baré.

Apagamento da língua

Florêncio Vaz (Foto: acervo pessoal Florêncio Vaz)

Em 1835, quando a Cabanagem ocorreu na região do antigo Grão-Pará – Pará, Amazonas, Amapá, Roraima e Rondônia -, o Nheengatu foi severamente criminalizado. Indígenas eram proibidos de falar a língua, porque poderia ajudar os líderes da revolta. A Cabanagem só acabou em 1840, com centenas de indígenas mortos. Mesmo após o término, o Nheengatu continuou a ser a língua mais falada da Amazônia pelo menos até 1850-1900, de acordo com estudiosos.

Antes disso, o surgimento do próprio Nheengatu ocorreu através da proibição da língua nativa dos povos. Os missionários católicos criaram o Nheengatu misturando palavras em português e em tupi, para padronizar a linguagem com características dos colonos. Com isso, línguas nativas foram sendo substituídas.

Substituídas, mas não apagadas. É o que explica o professor Florêncio Almeida Vaz Filho, indígena do povo Maytapu, do Programa de Antropologia e Arqueologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). “As estratégias de sobrevivência são muito importantes, os indígenas continuaram (com a língua), eles falavam, contavam histórias aos filhos à noite. Se essa forma fluente da língua se perdeu, a lógica da língua foi  preservada”, diz Florêncio.

O professor coordenou, de 2014 a 2017, um curso de extensão em Nheengatu para professores indígenas e tem pesquisas desenvolvidas sobre o tema. Ele explica que o Nheengatu é uma língua viva, que se adaptou e resistiu nas últimas décadas, por insistência dos povos indígenas.  Em muitas áreas, como no Alto Rio Negro, ela é muito falada ainda. Em São Gabriel da Cachoeira, a presença dela é tão forte que hoje é uma das línguas indígenas oficiais.

“Os indígenas trouxeram para o português a calma, a cadência, e até o silêncio. A forma como nos comunicamos no português preserva muito o Nheengatu. Independente dos artistas, dos acadêmicos. O que importa hoje é que existem povos que falam fluentemente o nheengatu, e para esse povo não existe crise”, diz.

Florêncio cita, como exemplo da preservação dessa lógica, o costume de dar presentes e distribuir alimentos entre parentes. Em nheengatu, a palavra que expressa essa ação é “putáua”. Os indígenas capturavam os animais, empalharam e davam de presente para parentes.

“Somos frutos de uma longa resistência, resistência cultural. Nós não perdemos a nossa cultura. Quando vemos as pessoas nas ruas andando juntas, íntimas, próximas, tudo isso vem de uma lógica indígena que persistiu, ela é a nossa marca. Não somos iguais”, explica.

No ensino superior

Edson Kurikanwe Baré, um dos idealizadores da Academia de Letras Neeengatu
(Foto: Paulo Desana/Dabukuri/Amazônia Real)

Não há curso de graduação em Nheengatu nas universidades brasileiras. Alguns cursos de extensão foram oferecidos pontualmente, mas a língua continua sendo falada de diversas formas pelos povos amazônicos, sem uma padronização clara sobre seu uso.

O curso de extensão oferecido na Universidade Federal do Oeste do Pará, que ocorreu entre 2014 e 2017, formou 100 professores indígenas para atuação em aldeias. Ele foi construído pelo Grupo Consciência Indígena (GCI) e o resultado foi um amplo reconhecimento das comunidades indígenas do baixo rio Tapajós.

No artigo ‘O Nheengatu no Rio Tapajós: revitalização e resistência indígena’, escrito por Florêncio Almeida Vaz Filho e Sâmela Ramos da Silva, professora da Universidade Federal do Amapá, contam em detalhes como a restituição da língua ocorreu no lugar.

“Os alunos eram convocados a trazer resquícios, palavras, expressões, nomes de peixes, de lugares, de comida, esses retalhos, esses quebra-cabeças.  Eles iam dando sentido a essas peças que nem sempre tinham um sentido muito claro no dia a dia”, explica Florêncio.

Antes do curso de extensão, o GCI ofereceu oficinas e mini-cursos da língua. A primeira oficina ocorreu em 1999. Na época, o  contato com professores indígenas do Amazonas foi crucial para o reconhecimento dos povos do baixo Tapajós.

“O sentimento de orgulho das suas origens era reforçado pelo contato com os professores vindos do rio Negro, que eram também indígenas, e falavam das suas crenças e vivências. A sua presença conferia reconhecimento e legitimidade aos indígenas do baixo Tapajós, em uma fase em que os seus vizinhos nutriam ainda desconfianças sobre a sua verdadeira indianidade”, explicam os autores.

O curso de extensão foi paralisado em 2017. Ele era feito com verbas de organizações internacionais, que não foram renovadas. Em 2019, outras lideranças indígenas conquistaram recursos oriundos de verbas parlamentares para implementar um novo curso, mas a pandemia da Covid-19 interrompeu a execução. A estimativa é de que dê início ao processo em janeiro de 2022.

Nheengatu tradicional

O WhatsApp também é ferramenta para disseminação do Nheengatu. Desde janeiro de 2021, indígenas e não indígenas fazem parte do grupo “Nheengatu Tradicional”, que hoje conta com 115 participantes. Todos os dias eles conversam na língua de seus povos, discutem dialetos, criam glossários e ensinam traduções.

O grupo é administrado por indígenas que compõem as discussões da Academia da Língua Nheengatu. De manhã, todos se cumprimentam com “purãga ara”, que significa “bom dia”. Além de usar o nheengatu para a troca de mensagens, eles conversam sobre suas culturas, divulgam eventos de valorização do movimento indígenas e não é raro que promovam grandes discussões sobre como se escreve uma determinada palavra em cada região da Amazônia.

Dicionário de Nheengatu

Yaguarê Yamã (Foto: Reprodução Facebook)

Os escritores Yaguarê Yamã, Elias Yaguakãg, Egídia Reis e Mario José devem lançar, de forma presencial e respeitando os protocolos da Covid-19, o “Dicionário de Estudos de Nheengatu Tradicional”. O livro está disponível em sites de compras, mas o lançamento presencial ainda não tem data confirmada. O evento deve ocorrer em Manaus.

O Elias Yaguakãg explica que o dicionário foi escrito após ampla pesquisa, com mais de 60 livros publicados pelos autores no processo de coleta de informações sobre o Nheengatu Tradicional. Há 22 anos eles estudam a língua e buscam identificar os padrões e diferenças ortográficas nas diferentes regiões do Amazonas.

“O processo foi custoso e muito longo. Fizemos pesquisas muito a fundo, com pontos de vistas de alguns povos. Estávamos nessa ânsia da questão linguística e decidimos escrever o Nheengatu tradicional, do baixo Amazonas”, explica.

As outras vertentes da língua – dos povos do Rio Negro e Tapajós – serão estudadas na Academia. Elias afirma que muitos caboclos e indígenas não conseguem identificar o nheengatu em suas próprias falas e o dicionário deve colaborar com a identificação.

“Observamos que eles falam o Nheengatu, mas não sabem que falam. Juntam como se fosse tudo português, mas não é. Quando a gente vai ver o dicionário Aurélio, a gente encontra muitas palavras que a gente fala e que não existem ali. Então, é Nheengatu e Nheengatu Tradicional”, diz.

O dicionário faz parte da movimentação dos indígenas pela valorização da língua e está atrelado à iniciativa de criar a Academia e foi publicado pela editora Cintra (São Paulo, 2020). De acordo com Yaguarê, o pedido foi feito pelas lideranças das regiões.

“Se falava, se escrevia, mas precisava ter um senso regulatório. Redigimos e organizamos todo esse trabalho. O que sustenta a nossa ortografia é a tradição, Não é de hoje que se fala dessa maneira, desde os primeiros falantes. Os nossos velhos escreviam e nós mantemos a nossa escrita. É  uma vitória do movimento indígena, é uma vitória da língua geral da Amazônia”, diz.

Por Jullie Pereira Via Amazônia Real

Saberes sobre plantas medicinais podem desaparecer com extinção de línguas indigenas

Saberes sobre plantas medicinais podem desaparecer com extinção de línguas indigenas
Estudo da Universidade de Zurique, na Suíça, mostra que grande parte do conhecimento sobre plantas medicinais está atrelado a línguas indígenas ameaçadas
  • Analisando três regiões (Amazônia, Nova Guiné e América do Norte), os pesquisadores concluíram que 75% dos usos de plantas medicinais são conhecidos em apenas uma língua.
  • No noroeste da Amazônia, o estudo avaliou 645 espécies de plantas e seus usos medicinais conforme a tradição oral de 37 línguas, e detectou que 91% desse conhecimento só existe em apenas um idioma; sua extinção implica também a morte desse saber medicinal.
  • No Brasil, escolas indígenas desempenham papel importante na preservação das línguas, assim como iniciativas de catalogação e revitalização, como ocorreu entre os Karitiana de Rondônia e os Pataxó da Bahia e Minas Gerais.

“Cada vez que uma língua desaparece, desaparece uma voz para falar, desaparece uma forma de dar sentido à realidade, uma forma de interagir com a natureza, uma forma de descrever e nomear animais e plantas”, diz Jordi Bascompte, pesquisador do Departamento de Biologia Evolutiva e Estudos Ambientais da Universidade de Zurique, na Suíça.

O projeto Ethnologue avalia que 42% das mais de 7 mil línguas existentes no mundo estejam ameaçadas de extinção. No Brasil, são 99 os idiomas que estão morrendo, sem contar aqueles que já desapareceram. Segundo o Instituto Socioambiental, das mil línguas indígenas faladas em território brasileiro antes da chegada dos portugueses, apenas 160 ainda estão vivas.

Em estudo recente, Bascompte e o especialista em biodiversidade Rodrigo Cámara-Leret alertam para o fato de que a extinção de línguas indígenas levará consigo conhecimentos tradicionais sobre plantas medicinais e isso poderá diminuir as chances de descoberta de futuros medicamentos. Considerando que a tradição indígena conta com a oralidade para a transmissão de conhecimentos entre gerações, a extinção destas línguas enterra consigo um universo de saberes.

Diversos medicamentos hoje comercializados em larga escala no mundo são elaborados a partir de plantas medicinais. Eles vão desde o ácido acetilsalicílico, conhecido popularmente como aspirina, com seu princípio ativo extraído do salgueiro (Salix alba L.) até a morfina, extraída da papoula (Papaver somniferum).

Desafio duplo

Ao analisar 3.597 espécies vegetais e 12.495 usos medicinais, associando esses dados a 236 línguas indígenas de três regiões com rica diversidade biocultural – noroeste da Amazônia, Nova Guiné e América do Norte –, os cientistas chegaram à conclusão de que, nessas áreas, 75% dos usos de plantas medicinais são conhecidos em apenas uma língua.

“Descobrimos que as línguas que contêm conhecimento único são aquelas com maior risco de extinção”, acrescenta Bascompte. “Há uma espécie de problema duplo em termos de como o conhecimento irá desaparecer”.

As Américas se destacaram no estudo como hotspot de conhecimento indígena, em que a maior parte do conhecimento medicinal está atrelado a línguas ameaçadas.

O noroeste da Amazônia exemplifica bem o problema duplo, mencionado por Bascompte: o estudou avaliou 645 espécies de plantas e seus usos medicinais conforme a tradição oral de 37 línguas, e detectou que 91% desse conhecimento só existe em apenas um idioma. Se esse idioma se extingue, como pode ocorrer com muitos na Amazônia nos próximos anos, morre também o saber medicinal.

O livro The Healing Forest: Medicinal and Toxic Plants of the Northwest Amazonia (A Floresta Curativa: Plantas Medicinais e Tóxicas do Noroeste da Amazônia, em tradução livre), escrito em 1990 por Richard E. Schultes, norte-americano considerado pai da etnobotânica, forneceu a base do universo de plantas amazônicas avaliadas no estudo.

Perda cultural é maior do que perda da biodiversidade

Ao analisar a vulnerabilidade das tais espécies medicinais, o estudo verificou que 64% das plantas associadas a línguas comprometidas carecem de avaliação pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Segundo os pesquisadores, menos de 1% das espécies estão ameaçadas e 21% não correm risco de extinção.

Ainda que tal carência aponte a urgência em atualizar o estado de conservação das espécies, o estudo concluiu que a perda das línguas terá maior impacto na extinção do conhecimento medicinal do que a perda da biodiversidade. A constatação de que o patrimônio cultural é tão importante quanto as próprias plantas, no que se refere aos serviços da natureza, não é de hoje, mas resulta de outro estudo liderado em 2019 pelos mesmos cientistas, mostrando que o vínculo cultural e biológico são inseparáveis.

“Não podemos agora ignorar essa rede e apenas pensar nas plantas ou apenas pensar na cultura”, afirma Bascompte, lançando ainda um olhar para a tendência de minimizar a diversidade. “Nós, humanos, somos muito bons em homogeneizar a cultura e a natureza para que a natureza pareça mais ou menos a mesma em todos os lugares”.

No início de setembro, durante o encontro Amazoniar, organizado pelo Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), o artista e educador Denilson Baniwa falou sobre essa homogeinização do ponto de vista do indígena: “Se eu falo tão bem português é porque, de certa maneira, o meu povo e outros povos do Brasil foram obrigados a entender as tecnologias, conhecimentos, saberes de outros povos, principalmente de povos não indígenas, para poder sobreviver”.

Iniciativas para brecar a extinção

“No Brasil, quando a gente fala em preservação, a escola indígena tem um papel importante”, diz Luciana Sanchez Mendes, linguista especializada em idiomas indígenas. “É na escola indígena, dentro das comunidades, que as crianças vão ter as aulas, tanto de português quanto na língua da comunidade”.

Iniciativa para preservar a cultura do povo Karitiana, o Léxico Pedagógico de Plantas e Animais Karitiana foi elaborado ao longo de uma pesquisa para servir como material didático no ensino bilíngue na escola da Terra Indígena Karitiana, em Rondônia. Partindo da listagem e descrição, em língua karitiana, de vegetais e animais que se encontram na reserva, a elaboração envolveu anciãos, lideranças, extrativistas e professores no registro de conhecimentos tradicionais sobre o bioma amazônico.

Outra iniciativa se deu na Bahia e no norte de Minas Gerais, com a criação de um grupo de pesquisadores para estudar e revitalizar a língua pataxó, dada como extinta por longo tempo. A mobilização de jovens e professores do povo Pataxó, com pesquisa documental e de campo, levou à elaboração do Projeto de Pesquisa e Documentação da Cultura e Língua Pataxó. Patxohã ​foi o nome dado à língua retomada, que está sendo ensinada em diversas aldeias.

“Quando os adultos deixam de falar com as crianças na sua língua é o momento em que o linguista considera uma língua ameaçada”, comenta Mendes, pós-doutora pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). A desvalorização das línguas indígenas em detrimento do português e espanhol, línguas dominantes desde os tempos coloniais, é um dos motivos que leva indígenas a conversarem com seus filhos na língua dominante. Buscam, assim, instrumentalizar os filhos para o sucesso social. Todas as pressões sofridas pelos povos indígenas e as mortes recentes de líderanças pela covid-19 também causam perdas culturais.

Com o objetivo de que os povos indígenas possam preservar, revitalizar e promover suas línguas, a Unesco lançou a Década Internacional das Línguas Indígenas de 2022 a 2032.

“Existe vida fora do inglês. São línguas que tendemos a esquecer, as línguas dos pobres desconhecidos que não têm representatividade porque não ocupam assentos em painéis, nas Nações Unidas e coisas assim”, diz Bascompte. “Acho que temos que fazer um esforço para usar essa declaração das Nações Unidas para aumentar a consciência sobre a grande diversidade cultural e sobre como temos sorte como espécie por fazermos parte dessa incrível diversidade”.

Duolingo anuncia 5 novos cursos de idiomas ameaçados de extinção

Há anos a UNESCO vem alertando sobre os idiomas ameaçados de extinção. De acordo com a organização, pelo menos 43% das seis mil línguas faladas no mundo podem simplesmente desaparecer. Entre os idiomas em perigo, 190 deles estão no Brasil.

O Duolingo, plataforma de aprendizado de idiomas mais popular e o app educacional mais baixado do mundo, está desenvolvendo cinco novos cursos pensando nestas formas de linguagem ameaçadas.

Devem entrar na plataforma cursos de maori (Nova Zelândia), crioulo haitiano (Haiti), tagalo (Filipinas), zulu e xhosa (África do Sul). As aulas estão em processo de criação e serão incluídas na plataforma em breve, se juntando aos 100 cursos em mais de 40 idiomas diferentes já disponíveis no Duolingo.

Todas estas línguas são pouco conhecidas ou ameaçadas de extinção, ou seja, têm poucos falantes, com pequenas chances de serem transmitidas para as gerações seguintes, e podem perder todos os seus falantes nativos.

O desenvolvimento dos seus cursos faz parte de uma iniciativa do Duolingo que visa ajudar a proteger estes idiomas e as suas culturas. O aplicativo já conta com sete idiomas minoritários em seu catálogo como o havaiano, navajo, escocês gaélico, irlandês, galês, guarani e iídiche – lançado no início de 2021.

Feitos em parceria com a ONG Nal’ibali, que promove a leitura plurilinguística, os cursos de línguas sul-africanas (zulu e xhosa) trarão uma maneira totalmente diferente de aprender, já que um dos maiores desafios desses idiomas é o clique, som feito com a língua e usado para falar muitas palavras.

Foto: Getty Images

“Aprender um novo idioma vai muito além do que apenas compreender uma nova língua, é sobre saber interpretar a cultura do outro país e preservar a riqueza do seu passado. E não há maneira melhor de manter estas culturas vivas do que tornar o seu idioma acessível para todos, com diversão, eficácia e motivação, que são os pilares do Duolingo”, diz Analigia Martins, diretora de marketing do Duolingo no Brasil.

Todos estes cursos estão sendo criados, inicialmente, para falantes de inglês, e devem estar disponíveis no app no início de 2022.

Redação Hypeness 

 

UNESCO e TALKMATE, Pequim, lançam parceria para “Atlas Mundial das Línguas”

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UNESCO e Pequim 200H Educação Technology – TALKMATE – concordaram em cooperar durante o período de quatro anos no desenvolvimento da Atlas Mundial das Línguas.

Com base na World Atlas UNESCO existente de Línguas em Perigo, o Atlas Mundial das Línguas irá contribuir para a salvaguarda da diversidade linguística do mundo e a promoção do multilinguismo no ciberespaço através da aplicação efectiva das TIC através de redes institucionais de ensino, público – sector privado e engajamento cívico.

O lançamento da parceria com TALKMATE aconteceu em 8 de Julho de 2016, Diaoyutai State Guesthouse, em Pequim. Um evento de meio-dia incluiu uma cerimônia oficial e mesa redonda sobre ” A importância da Língua para o desenvolvimento” para determinar os próximos passos para a implementação do projeto e estabelecer novas parcerias de cooperação entre os diferentes intervenientes na República Popular da China.

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