A utopia do esperanto falado num castelo francês por jovens de todo o mundo

Masko farado” ou “banado ce la lageto”? No parque de um castelo no coração da França, a chinesa Yuan-Yuan, de dez anos, e o francês Anaïs, com 14, discutem em esperanto qual será o programa que vão fazer à tarde, entoando naturalmente uma língua nascida para ser universal mas que continua pouco utilizada.

De forma unânime, as 20 crianças que estão reunidas no castelo neo-renascentista Grésillon em Saint-Martin d’Arce, na comuna francesa Baugé-en-Anjou no centro do país, e que ali estão para o encontro internacional de jovens utilizadores de esperanto, finalmente optam pelo workshop de “fazer máscaras” em vez de “nadarem no lago”. O tempo fresco impôs a escolha.

“Metade destes jovens são ‘denaskulo’, que é o que se diz das pessoas em que uma das suas línguas maternas é o esperanto. O interesse é que aqui podem praticar a língua com outras crianças fora de um ambiente estritamente familiar”, diz Cyrille Hurstel, um dos organizadores deste encontro.

Mais de um século depois da criação de Ludwig Zamenhof, o esperanto espalhou-se pelo mundo, mas ainda está longe de ter alcançado a universalidade que o linguista polaco desejava. “Podemos dizer que alguns milhões de pessoas no mundo têm algumas noções de esperanto, mas há pouco mais de 100 mil a usá-lo diariamente”, diz Cyrille Hurstel.

Ao contrário de línguas como o hebreu, o filipino ou o suaíli, que floresceram depois de serem criadas ou recriadas, o “esperanto nunca foi capaz de se apoiar na estrutura oficial de um estado, apesar de duas resoluções das Nações Unidas a seu favor”, lamenta o engenheiro, que é certificado pelo programa quadro europeu de referência para as línguas do Conselho Europeu.

O esperanto está proposto nas escolas de apenas 25 países, da Índia à Albânia, passando pelos Estados Unidos e pela Hungria, onde é reconhecido nas universidades. E os seus defensores começam a ver finalmente uma lenta globalização.

A língua tem uma gramática simples e uma sintaxe que não contempla excepções. No entanto, consegue expressar todas as nuances do pensamento. É mais fácil de aprender que o inglês e, para os seus defensores, vai ser a língua-franca do século XXI. “Um chinês e um brasileiro que queiram fazer negócios ganham muito mais tempo em aprender o esperanto do que o inglês”, defende Cyrille Hurstel. Por isso, e “muito antes da Internet, o esperanto é uma ótima porta de entrada em qualquer país, quer para férias, quer para o negócio, porque [quem o falar] vai ser recebido como família pelos locais que falam a língua”, acrescenta.

No Castelo Grésillon, os jovens reúnem-se depois do “tagmango” (almoço) e comunicam uns com os outros sem barreiras. “É fixe poder falar com crianças de outros países nesta língua”, comenta Stella, uma adolescente alemã de 14 anos.

Para os pais, “o esperanto é uma forma relativamente fácil de dar aos filhos uma educação bilíngue, que facilita a aquisição futura de outras línguas”, explica Cyrille Hurstel que, com a sua mulher, ensinou o esperanto às suas três filhas.

Esta língua começou a ser inventada na década de 1870 por Ludwig Zamenhof, que pertencia a uma família judia em Bialystok (uma cidade hoje situada no Nordeste da Polônia que na altura pertencia ao território russo), onde comunidades polacas, ídiche, russas e alemãs, conviviam com pouca conversa. O linguista construiu o esperanto a partir de elementos das línguas latinas, germânicas e eslavas.

“A língua é simples, principalmente para os europeus, mas não é simplista: há uns dias, fui corrigido por um participante chinês. Um dos aspectos interessantes é que um utilizador do esperanto não tem mais legitimidade do que outro utilizador”, conclui Cyrille Hurstel.

Fonte: Público.pt

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