O RAP Guarani na luta pela terra
Hoje (13/9), a menor terra indígena do país fará mais uma manifestação pelo direito de ter suas terras reconhecidas, a aldeia Pyau, nas cercanias do Parque Estadual do Pico do Jaraguá, em São Paulo. É uma luta que se arrasta há mais de duas décadas e envolve o descaso das autoridades municipal, estadual e federal. Um lago contaminado polui as águas do rio que corta as suas terras dos índios guarani. Se isso já não fosse o bastante, eles, e a maioria da população indígena brasileira, ainda se vêem ameaçados pela Proposta de Emenda Constitucional 215, que transfere a decisão da demarcação de terras para o Congresso Nacional.
E o que tudo isso tem a ver com a música? Ou, melhor questionando, o que a música pode fazer para ajudar? Veja o vídeo e entenda como:
http://www.youtube.com/watch?v=iq3kYr8cJkM
Xondaro MCs cantam rap, o rap tupi-guarani. A canção começa na língua materna dos índios, mas depois passa a ser cantada em português ou misturada entre os dois idiomas. Palavras ou expressões como “discriminar”, “gente inocente”, “governo”, “violência”, “dando tapa”, “coronhada” e “humilhando nossos irmãos” não faziam sentido algum na cultura indígena. Hoje, elas invadiram as aldeias da pior forma possível.
Segundo a antropóloga Bia Labate, xondaro “é uma arte marcial do povo Guarani em que eles buscam o equilíbrio físico e espiritual. É uma dança praticada em roda, coordenada por um mestre, e praticada pelos Guarani desde a primeira infância”. Os Xondaro MCs, que se apresentam em festivais indígenas ou de cultura periférica, incorporaram ao nome o espírito de guardião de sua aldeia. Cantam num ritmo que pouco ou nada tem a ver com suas origens. Mas quem sabe só assim eles passam a ser ouvidos?
Carta Pública dos Povos Indígenas do Brasil à presidenta da República Dilma Rousseff
Em reunião realizada com a presidente da República na tarde de hoje, 10, lideranças e organizações indígenas da APIB e distintos povos do Brasil reivindicam do governo, a construção de uma agenda positiva, com compromissos e metas concretas para atender as demandas dos povos indígenas.
A seguir, íntegra da carta entregue à presidente da República.
Por uma democracia menos cacique
Para Washington Novaes indignação não basta. Reinventar política exige conhecimento, alternativas e relações sofisticadas de autoridade, como… as dos índios!
Entrevista a Inês Castilho, editora da série Outra Política
As sociedades indígenas podem ser exemplos inspiradores para nós, caras pálidas. Estamos condicionados a observar apenas suas carências. Não enxergamos outro aspecto, que poderia nos inspirar: “São sociedades sofisticadas”. Cultivam as relações horizontais, a liberdade de não receber ordem de ninguém; o acesso livre à informação; respeito e liberdade nas relações entre homem e mulher. Quem convida a esta nova mirada é o jornalista Washington Novaes, voltado há mais de 50 anos ao exame de assuntos ligados a ambiente, desenvolvimento e democracia. Autor do documentário “Xingu, a terra ameaçada”, reconhecido por inúmeros prêmios nacionais e internacionais, autor de treze livros, Novaes foi entrevistado no âmbito do estudo Política Cidadã, produzido pelo instituto Ideafix para o IDS (Instituto Democracia e Sustentabilidade).
O índio da mídia
A manchete do Estadão (23/11/68) usou o verbo trucidar e as palavras chacina e ferocidade quando noticiou que nove corpos de membros da Expedição Calleri foram localizados, em 1968, no território dos Waimiri-Atroari. Embora ninguém soubesse ainda o que havia efetivamente ocorrido, o repórter, antes mesmo de se deslocar até a área, se apressou em afirmar que os índios eram os autores da carnificina. Para isso, exibiu antecedentes históricos sem mencionar qualquer referência documental:
“Calcula-se que mais de 1500 brancos foram massacrados pelos Waimiri-Atroari de umas décadas para cá”.
As retratações pelos genocídios históricos e a guerra de Belo Monte: que Estado é esse?
O Estado Brasileiro, em recente data, e por meio de seu chefe, o então presidente Lula, se retratou diante da África por ter praticado a escravidão de negros em sua história de país democrático. E também em recente data, esse mesmo Estado tem se esforçado para rever suas politicas de discriminação, silenciamento e exclusão contra negros, índios, pobres, mulheres, campesinos ou trabalhadores rurais, propondo ações politicas que, embora ainda não sejam suficientes, são fundamentais para que essa maior parcela do povo brasileiro possa usufruir de algumas melhorias sociais, econômicas e simbólicas em seus cotidianos. E em seu porvir.
O Estado Brasileiro, na atual data, e por meio de sua chefe, a presidenta Dilma, é chamado ao diálogo pelos indígenas que ocupam os canteiros de Belo Monte em defesa de seus direitos à terra e a um modelo de desenvolvimento que sempre foi o deles, contínuo e qualificado.
Mas esse Estado Brasileiro se vê envolto no manto de um outro modelo de crescimento econômico tantas vezes almejado por nossos anteriores governantes, ao ponto de, ao longo de sua história, ter se empenhado no extermínio de todos aqueles que pudessem se colocar como barreira aos objetivos de seus interessados genitores e gestores. Sua brutalidade institucionalizada pelo SPI e latifundiários contra os indígenas nos chega documentada pelo relatório Figueiredo. Felipe Canêdo, na sua reportagem Documento que registra extermínio de índios é resgatado após décadas desaparecido, publicada em 19 de abril de 2013, comenta:.
Entre denúncias de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados isolados e doações de açúcar misturado a estricnina, o texto redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo ressuscita incontáveis fantasmas e pode se tornar agora um trunfo para a Comissão da Verdade, que apura violações de direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988.
Pois bem, o Estado Brasileiro, agora diante de outra guerra pelo desenvolvimento, é chamado a dialogar.
Mas o Estado desenvolvimentista a qualquer preço parece surdo, parece que não dialoga. O outro Estado dos Direitos Sociais e Humanos parece que esperará o tempo futuro para se retratar de uma tragédia que ele mesmo, agora, neste exato momento, se isenta de assumir e de buscar alternativas. Afinal, que Estado é esse?
A guerra declarada em Belo Monte nos liga a uma história de massacres do passado cuja consciência questiona o tradicional papel do Estado. A atual demanda dos indígenas por diálogo, amplamente divulgada, oferece a oportunidade histórica para que o Estado brasileiro abra-se a inovações e assuma novos posicionamentos em face do progresso e do patrimônio humano e natural que o constitui, protagonizando efetivamente o respeito à diferença e a justiça econômica e social.
Sim, o fato presente nos liga com nossa história. Mais do que isso, a história de massacres obriga que o Estado do presente tenha outro papel e que seja de bem estar para todos. Não precisamos de retratação futura. Precisamos de um presente com vida.
Rosângela Morello, junho de 2013.
Carta no. 8: o massacre foi anunciado e só o governo pode evitar
Nós ocupamos o canteiro de obras de Belo Monte. Nós estamos defendendo nossa terra. Uma terra muito antiga que sempre foi nossa. Uma parte vocês já tomaram. Outra vocês estão tentando tomar agora. Nós não vamos deixar.
Vocês vão entrar para matar. E nós vamos ficar para morrer. Nós não vamos sair sem sermos ouvidos.
O governo federal anunciou um massacre contra os povos indígenas, os 170 guerreiros, mulheres, crianças e lideranças e pajés que estão aqui. Esse massacre vai acontecer pelas mãos das polícias, da Funai e da Justiça.
Vocês já mataram em Teles Pires e vão matar de novo quando for preciso para vocês. Vocês mataram porque nós somos contra barragens. Nós sabemos do que vocês são capazes de fazer.
Agora quem pediu para nos matar foi a Norte Energia, que é do governo e de empresários. Ela pediu para o juíz federal, que autorizou a polícia a nos bater e matar se for preciso. A culpa é de todos vocês se algum de nós morrer.
Chega de violência. Parem de nos ameaçar. Nós queremos a nossa paz e vocês querem a sua guerra. Parem de mentir para a imprensa que estamos sequestrando trabalhadores e ônibus e causando transtornos. Está tudo tranquilo na ocupação, menos da parte da polícia mandada pela Justiça mandada pela Norte Energia mandada pelo governo. Vocês é que nos humilham e ameaçam e intimidam e gritam e assassinam quando não sabem o que fazer.
Nós exigimos a suspensão da reintegração de posse. Até dia 30 de maio de 2013, quinta-feira de manhã, o governo precisa vir aqui e nos ouvir. Vocês já sabem da nossa pauta. Nós exigimos a suspensão das obras e dos estudos de barragens em cima das nossas terras. E tirem a Força Nacional delas. As terras são nossas. Já perdemos terra o bastante.
Vocês querem nos ver amansados e quietos, obedecendo a sua civilização sem fazer barulho. Mas nesse caso, nós sabemos que vocês preferem nos ver mortos porque nós estamos fazendo barulho.
Canteiro de obras de Belo Monte, Vitória do Xingu, Pará, 29 de maio de 2013
Fonte: Ocupação Belo Monte


